Monday, February 26, 2007

Composto

Canção-corrói, transpassa-tempo.
Caça, cata-vento.
Coração –coragem.
Deposto – fraguemento.

Destino - desilusão
Apreço-aparição
Ama! Dança!
(...) Beating on my heart like a feather Beating of a moment til I disappear
Senhora musa da paz me abraça, me carrega no teu andor.Dormir no colo da dor, amiga arrasa!A tua mão desenhou o sonho na areia.Agora, entrega de vez meu rumo e vida.Diga uma palavra, alegre, manda um recado, que seja agora...Faz o mundo ficar novo, e dançar no colo do tal de amor!Diga uma palavra, cara bem alegre...Corre, manda logo um recado!Me abraça, faz um clima doce.Me arrepia!Chega de sufoco, me poe louco!Me faz diamante, teu amante...Dança ao som do vento!Me ensina, basta de sufoco.Não faz jogo...Breath after breath

( Duran Duran & Milton Nascimento)

Saturday, February 24, 2007

A Borboleta Azulada
Porque essa inclinação em ficar te enchendo de confissões minhas?
Acredito em suas palavras. Confio em você.
Gosto da garota de pele alva. Olhar sinuoso.
Cabelos vermelhos.
Unhas negras.
Anda com poesia nos olhos.
Senta-se no banco da praça mais deserta, debaixo da árvore mais velha, sob a sombra mais intensa.
Depois da chuva forte, bate o sino da igreja, vazia, ás 18:00 horas.
Caminha através de pessoas que não vê.
Detêm-se a pequenos detalhes de sombra e luz.
Passa por ela mais uma vez a borboleta que vive já há cinco dias.
Bate as asas azuladas. Brilham.
O tom do céu muda com as horas. Carrega na bolsa de coro desbotado o livro predileto.
Na pagina trinta e sete tem a poesia que mais gosta. Rilke.
Solta-se. De impulso derradeiro capta olhares das nuvens.
Agora límpidas.
Aprecia figuras de anjos medievais.
Direciona-se e debruça sobre o banco de madeira o corpo franzino.
Braços abertos. Olhos de ferrugem.
Aquele olhar de cera que atravessa o sol.
Só a solidão ausenta-se.






















Thursday, February 15, 2007

















Existência

Qual sua realidade vivida?
Às vezes não sei, não sei por qual porta entrar!
Impulsividade dominadora, tormento passageiro!
Tinha o tempo nas mãos, agora não vejo o dia passar!

Dentre tantas...
Vários micro mundos circundam a noite azul
Não quero, não tenho apreço a lembrança doída!
Tenho agora a escolha real e visível

Deposito no peito ardor e veracidade
Faço dessa existência a lacuna de muitos
Entorpeço-me, não consinto...
Quero e tenho, o rumo dos sonhos!
Certos dias me dizem:
Deve-se nascer a cada segundo
Foge das dores cotidianas
Queima em felicidade, abraça o mundo!























Friday, February 09, 2007















Noite branca.

Quisera eu ter aquele tamanho, os braços eram longos e reforçados, não tinha apreensão nos olhos, esses eram vultuosos e sagazes. Guilherme não tinha mais cabelos longos como antes, mesmo trabalhando de sol a sol, suas mãos ainda pareciam macias e firmes. Esticava o corpo todas as manhãs na varanda da casa. Não era desses garotos que cultuam o corpo, nem precisava... Morava com os tios, tinha cumplicidade com a tia de nome Vilma, dava-lhe todo carinho que nunca teve dos Pais. Fato esse que tentava deixar passar desapercebido, mas seus olhares tristes eram denunciadores. Tentava desesperadamente esconder-se atrás de certa arrogância e impessoalidade. Parecia ter poucos amigos. Muito poucos. Talvez não por opção, quem sabe?
O lugar sagrado eram as quatro paredes brancas daquele quarto frio.
Cheio de adereços em cristais e gesso, cuidadosamente lustrados.Era cuidadoso.
Excêntrico às vezes. O fato de nunca abrir as janelas deixava um mau cheiro, nem as cortinas pareciam serem estendidas, algumas frestas de luz adentravam por espaços da entrada que dava para um sótão, escuro e gelado. Poucas vezes subia ali...
Mantinha coleções de álbuns de vinil, alguns nunca ouvidos, os preferidos estavam na parede, olhava como se olha aquém se quer...Ao lado a coleção de borboletas azuis, a qual trazia desde a infância, recordação do Pai falecido. Tentava recompor as asas destruídas pelo tempo, assim como fazia com sua mãe, durante longas noites. O retrato em cima da cama trazia uma mulher austera, com grande vivencia.Sumiu em um dia de chuva sem deixar vestígios. Não levou nada, apenas a roupa do corpo. Estranheza total.
Guilherme matinha um saudosismo ácido.Como quem só olha de dentro para fora, assim via tudo se delinear em sua frente, pequenos formatos tomavam proporções enormes.
Quem me dera desvendar o que aquele garoto trazia no peito, o que fazia seus olhos brilharem por tão pouco, pareciam tênues seus momentos de felicidade. Deveriam ser... É isso! Guilherme só olhava de dentro para fora-tudo partia de uma sensibilidade frágil e extrema. Não era percebida assim, por olhos nus. Poucos a percebiam. Mesmo assim aqueles olhos sempre pareciam cerrados, olhares tímidos e sorrisos amenos. Timidez? Talvez...Tinha as mãos geladas. Sempre mudando de lugar os móveis do quarto. Nada ficava fora do lugar. Só pessoas especiais também podiam ocupar aquele espaço.
Transformara aquele ambiente em algo intransponível. Único e passível de seus devaneios.
Alguns segredos deveriam estar contidos ali? Brigava com Bruno o primo mais novo, por sempre estar espiando pela fresta da porta, às vezes em um descuido deixava entreaberta.
Trabalhava com Tio em oficina mecânica, dava duro sem reclamar. Aos vinte e dois anos tinha acabado o colegial, mas ainda não tinha dado um rumo na vida, muitas indecisões assolavam seus pensamentos, esse era um dos grandes motivos para ser diariamente atormentado pelo Tio. Homem de poucos sorrisos. Matuto e exigente, sempre dava tarefas difíceis a Guilherme-algumas embora normais-para Guilherme pareciam definitivamente impossíveis de serem cumpridas. Mas sempre vazia o possível para servi-lo. Mesmo contrariado dava tudo de si, era assim em tudo o que se propunha a fazer.
Ir até o mercado era uma dessas tarefas difíceis, não gostava de cruzar as avenidas, preferia as vielas e ruas estreitas, certo que ali haveria pouco movimento. Alguns olhavam com certo espanto, porque aquele garoto chamava-lhes atenção? Não pela estética, talvez transpassasse uma certa inquietude que era disseminada por onde era visto, por onde passava. Afinal em cidades pequenas todos deveriam se conhecer e assim se dar bem.
Mas isso não acontecia. Talvez aquele jeito era seu e de mais ninguém. Apenas seu jeito de ser. Andar descalço na grama gelada. Debaixo de o cipreste amarelo encostar os braços, estender as pernas e roer as unhas. Usava camisetas com pétalas bordadas.
Os finais de semanas eram dedicados a falar de amenidades pra si mesmo.
Coisas que simples para muitos, para Guilherme tinham dimensões extremas.
Noites que pareciam cinzas, a seus olhos eram brancas. Era particular e privado seu mundo.
Pequeno grande mundo.