Saturday, March 27, 2010

Persona

Noite branca.

Quisera eu ter aquele tamanho, os braços eram longos e reforçados, não tinha apreensão nos olhos, esses eram vultosos e sagazes. Guilherme não tinha mais cabelos longos como antes, mesmo trabalhando de sol a sol, suas mãos ainda pareciam macias e firmes. Esticava o corpo todas as manhãs na varanda da casa. Não era desses garotos que cultuam o corpo, nem precisava... Morava com os tios, tinha cumplicidade com a tia de nome Vilma, dava-lhe todo carinho que nunca teve dos Pais - Fato esse que tentava deixar passar despercebido, mas seus olhares tristes eram denunciadores. Tentava desesperadamente esconder-se atrás de certa arrogância e impessoalidade. Parecia ter poucos amigos. Muito poucos. Talvez não por opção, quem sabe? O lugar sagrado eram as quatro paredes brancas daquele quarto frio, mas aquecido por olhares dela. Cheio de adereços em cristais e gesso, cuidadosamente lustrados. Era cuidadoso.
Excêntrico às vezes. O fato de nunca abrir as janelas deixava um mau cheiro, nem as cortinas pareciam serem estendidas, algumas frestas de luz adentravam por espaços da entrada que dava para um sótão, escuro e gelado. Poucas vezes subia ali...
Mantinha coleções de álbuns de vinil, alguns nunca ouvidos, os preferidos estavam na parede, olhava como se olha aquém se quer... Ao lado a coleção de borboletas azuis, a qual trazia desde a infância, recordação do Pai falecido. Tentava recompor as asas destruídas pelo tempo, assim como fazia com sua mãe, durante longas noites. O retrato em cima da cama trazia uma mulher austera, com grande vivencia. Sumiu em um dia de chuva sem deixar vestígios. Não levou nada, apenas a roupa do corpo. Estranheza total. Guilherme matinha um saudosismo ácido. Como quem só olha de dentro para fora, assim via tudo se delinear em sua frente, pequenos formatos tomavam proporções enormes. Quem me dera desvendar o que aquele garoto trazia no peito, o que fazia seus olhos brilhar por tão pouco, pareciam tênues seus momentos de felicidade. Deveriam ser...
É isso! Guilherme só olhava de dentro para fora-tudo partia de uma sensibilidade frágil e extrema. Não era percebida assim, por olhos nus, precisava ser “descoberto”, ter seu interior decodificado. Eram Poucos a perceber. Mesmo assim aqueles olhos sempre pareciam cerrados, olhares tímidos e sorrisos amenos. Timidez? Talvez... Tinha as mãos geladas. Sempre mudando de lugar os móveis do quarto.
Nada ficava fora do lugar.
Só pessoas especiais também podiam ocupar aquele espaço.
Transformara aquele ambiente em algo intransponível. Único e passível de seus devaneios. Alguns segredos deveriam estar contidos ali? Brigava com Bruno o primo mais novo, por sempre estar espiando pela fresta da porta, às vezes em um descuido deixava entreaberta. Trabalhava com Tio em oficina mecânica, dava duro sem reclamar. Aos vinte e dois anos tinha acabado o colegial, mas ainda não tinha dado um rumo na vida, muitas indecisões assolavam seus pensamentos, esse era um dos grandes motivos para ser diariamente atormentado pelo Tio. Homem de poucos sorrisos. Matuto e exigente sempre dava tarefas difíceis a Guilherme-algumas embora normais-para Guilherme pareciam definitivamente impossíveis de serem cumpridas. Mas sempre vazia o possível para servi-lo. Mesmo contrariado dava tudo de si, era assim em tudo o que se propunha a fazer. Ir até o mercado era uma dessas tarefas difíceis, não gostava de cruzar as avenidas, preferia as vielas e ruas estreitas, certo que ali haveria pouco movimento. Alguns olhavam com certo espanto, porque aquele garoto chamava-lhes atenção? Não pela estética, talvez transpassasse certa inquietude que era disseminada por onde era visto, por onde passava. Afinal em cidades pequenas todos deveriam se conhecer e assim se dar bem. Mas isso não acontecia. Talvez aquele jeito fosse seu e de mais ninguém. Apenas seu jeito de ser. Andar descalço na grama gelada. Debaixo do cipestre amarelo, encostar os braços, estender as pernas e roer as unhas.
Usava camisetas com pétalas bordadas.
Os finais de semanas eram dedicados a falar de amenidades pra si mesmo.
Coisas simples para muitos, para Guilherme tinham dimensões extremas.
Noites que pareciam cinza, através de seus olhos eram brancas e plácidas.
Era particular e privado seu mundo.
Pequeno grande mundo.

Eu para a Persona de Guilherme.

Jazz

A chuva fina e silenciosa veio de repente; fiquei todo molhado, foi proposital.
Adorei. Ela ainda escorre pelo vão da janela e faz um barulho de "Jazz" batendo na calha.
Ela, a chuva.

Eu.

(Passagem/Vida)

Alguns minutos ou segundos podem ser tão valiosos quanto uma vida toda sem poesia, palavras e silêncio.


Eu.

Wednesday, March 17, 2010

Last night I dreamt..

Tempo de respirar fundo, pulmões abertos para o céu.
Tempo de dar menos tempo à pseudo-preocupações, de sorrisos largos pela manhã, intensos a noite. Tempo de novos amigos, amores e fotografias na parede, tempo de novas canções e poesias, novas cores e filmes.
Tempo de confiança e esperança.
Euforias.


Eu.

Monday, March 08, 2010

Mulher

A vida
Substantivo femenino
Eterna arte menina
Esculpida suavemente
Construida e concebida
Ah! As mãos firme da mulher...

Mãos embebidas de justiça e desejo
Quanta força, garra e ousadia
Negra, branca, gente de um país qualquer
Zildas, Teresas e Marias
Ligação e seiva do uviverso
É o femenino, é tua, a vida mulher!

Luiz Carlos Paixão da Rocha.
[Uma pequena homenagem às mulheres que cotidianamente ajudam a construir um mundo melhor].

Sunday, March 07, 2010

Branco dos Olhos

Pálido é o espelho que reflete sua hora
Das cortinas lilases que se sobressaem em transe
Ao avesso do espinho que sangra!
Despejam-se nas mãos esperanças remotas.

Cravou-se no varal das incertezas
Debruçou-se em línguas infalíveis
Denunciado foi no branco dos olhos.


Eu.

Saturday, March 06, 2010

Tons

Tenho visto nuances da vida em preto e branco, monocromáticos são os tons.
As palavras têm pele, as sinto, transpiro.
Assim, as liberto!


Eu.