Monday, October 23, 2017

Espaços

Eu deixo tudo entre os espaços, os mesmos que nos separam e por vezes nos unem. Espaços nos atam em um instante. Não tenho apreço por essas relações às quais se interligam sem conexões prévias, desprovidas de tato, sensação presente. Em um corpo há alma, com fragrância e luz a iluminar as mãos sensíveis de entes que lhe tocam. As luzes dos olhos de alguém lhe tocaram hoje? Manha abissal em nossas mãos... Tinha um bosque azul, do mais esplendido azul, azul que ameniza a retina dos olhos; em alto mar, mare mansa sem redemoinhos. 

Desde ontem tento preencher espaços, lacunas laterais, lanternas que beiram o canto descolorido da casa, cães desprovidos de calor me causam medo, sinto a fome neles. A madeira velha foi substituída naquele espaço onde o ar frio entrava com violência. Da repentina que chuva que cai em mim, ficaram as marcas de anos anteriores, anos que não votam jamais, o presente é um estágio constante da saudade. Já pensou na possibilidade de perder a sensação de tempo? 


Ele.

Sunday, March 19, 2017

Monday, March 13, 2017

Novos caminhos

Só escrevo quando a pele arde.
Nada é sutil o bastante que não possa distrair alguém em constante distração, pois a distração muitas vezes é encanto, escondido entre árvores emudecidas.
Não à distração dos atônitos, mas a erudição dos sábios populares, os contempladores dos mínimos acontecimentos, aqueles considerados irrelevantes, ao redor tudo ganhará proporções gigantescas, ao redor de tudo que nos cerca. 
Agora só quero a beleza dos rios e a imensidão do silêncio, não tenho mais apreço por desventuras de quem não sabe voar.
 É tanto.

Queria eu dar conta de tudo que vem de mim; não tenho aptidão para multidões, nem de sonhos em bloco, são tantos... 
A maioria deles não serão vivenciados, já mediu o quanto de seus sonhos não serão vivenciados? 
Isso é realidade ácida, mas não nos importa mais a quantidade, mas sim, a intensidade, não é? 
É o final, desse espaço veremos novas eras, novos olhares, novas sensações, a retina se purificou. 
O que ficou foi a verdade dos erros e acertos. 
Não quero mudar nada em mim, enfim, novos caminhos.

Saturday, January 07, 2017

Monday, November 21, 2016

Ode disforme


És céu onde padece meu sonho de apreço febril
És céu onde reina a quimera de uma vida sem fim
És céu onde o bocejo da aurora em sono se cala
És céu onde revejo vestígios de corpos benzidos pelo afã do suor

És céu onde tudo se refaz e renasce sem vida
És céu de lençóis  translúcidos e virgens corpóreas
És céu de repouso lunar e olhares de culpa 
És céu onde transbordam espumas  em cetim dourado

És céu de brancos incalculáveis e brechas falíveis 
És céu em línguas insólitas e suspiros de afeto

És céu...



Tuesday, September 27, 2016

Vazios

Era só mais uma tarde, dessas onde se espera a possibilidade de esgueirar-se por entre a infelicidade de um cotidiano massivo e dilacerante ou a imprecisa espera por uma ociosidade contemplativa do nada. Nada é também felicidade.
Para Gertrudes e Agatha, garotas de pálpebras acinzentadas, dedos finos e cabelos nos ombros, o 'nada' declarado tinha sentido obtuso e disforme, visto por olhos alheios, afinal como contemplar o nada
Para ambas só era possível contemplar o nada a partir de uma total inversão, pois o nada é ao mesmo tempo tudo. Gertrudes não existiria sem Agatha, assim como, Agatha só se via em si mesma como reflexo de Gertrudes.

Frustradamente tentavam analisar o espaço que as separava, sendo esse espaço inexistente, pois se percebiam uma como a extensão da outra. 
Aquelas folhas secas de inverno colhidas por Agatha só representavam beleza se sua contemplação fosse percebida por Gertrudes, a partir dos novos dias daquela nova estação não existiria mais o nada, sendo Agatha e Gertrudes extensões de si mesmas, tudo lhes era caro, o vazio, o contemplativo, o belo, o obscuro, a felicidade; fundiam-se.

Ele.

Friday, August 26, 2016

Hermann Hesse

"A Idade só se aplica às pessoas Vulgares"
"A tendência para colocar uma ênfase especial ou organizar a juventude nunca me foi cara; para mim, a noção de pessoa velha ou nova só se aplica às pessoas vulgares. 
Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados são ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora são tristes ora alegres. É coisa dos mais velhos lidar mais livre, mais jovialmente, com maior experiência e benevolência com a própria capacidade de amar do que os jovens. Os mais idosos apressam-se sempre a achar os jovens precoces demasiado velhos para a idade, mas são eles próprios que gostam de imitar os comportamentos e maneiras da juventude, eles próprios são fanáticos, injustos, julgam-se detentores de toda a verdade e sentem-se facilmente ofendidos. A idade não é pior que a juventude, do mesmo modo que Lao-Tsé não é pior que Buda e o azul não é pior que o vermelho. 
A idade só perde valor quando quer fingir ser juventude."
(Hermann Hesse, in 'Elogio da Velhice').
Contemplaremos nossa inocência, com a sabedoria de nossa maturidade. 
Eternamente.
Ele.