Friday, July 29, 2011

Poesia feita na palma das mãos

Poesia feita na palma das mãos
Pintei o chão com giz em brasa
Gelo nos lábios
Agora, só a chuva apaga!

Cachoeira sem queda
Carvão na linha dos olhos
Umedecidos pela chuva
Abrem-se os poros

Abraços desmedidos, retorcidos!
Fugazes lembranças
Ardem os olhos
Lembra aqueles dias de criança?

Dádiva de um anjo azul
Nuvens em forma de almofadas
Atenho-me nas quimeras
Continuo a voar, agora sem asas...


Eu.

Tuesday, July 12, 2011

Pela manhã de ontem

As nuvens do lado de fora da janela estão distantes, muito distantes, são tão azuis como o mar em dias de gloria, o sol aponta no céu.
Esses dias sempre nos oferecem possibilidades até então impossíveis, nesses últimos dias, aqui nessa região, captar o céu em seu estado puro, totalmente azul, falo daquele azul dos sonhos, lindo, poucas nuvens suspensas ao longe, lembram almofadas de algodão.
Vem aquela vontade de sentar-se a beira do penhasco e dar vida a contemplação.
Eu sempre me repito, mas qual beleza única e pura não deverá ser relembrada e sentida?
Muitas e muitas vezes. Poucas são as pessoas que “cultuam” olhar o céu e contemplá-lo, suponho que devam ser muito poucas, talvez haja uma explicação mais concreta para isso; esse tempo voraz que a todos consome que há todos acorrenta.
Confesso, é preciso “fugir” desse estado de putrefação da sensibilidade, esse estado que todos têm, mas poucas percebem. Quebrar as regras da mesmice cotidiana não é nada fácil, aliás, poucos conseguem. Fazê-lo, se tornou um desafio nos dias atuais, fazer cada dia valer mais e mais, dedicar um sorriso ao desconhecido, um abraço a alguém o qual não se vê há tempos, ou mesmo que não se conhece quem nunca se viu, assim gratuitamente, amenidades essas as quais fazem extrema diferença no especo que nos separa, eu e você, no espaço que separa todos de todos. Sentar-se na calçada e observar o movimento cadenciado das formigas me parece algo interessante, haja vista o que nos cerca lá fora, não abro mão disso, jamais.
As borboletas e suas multicores, silhuetas ainda continuam sendo um dos grandes “vícios” aos meus olhos, assim como as pálpebras assistidas em corredores e vielas da minha alma. Continuo seguindo o caminho que às vezes me parece ser o mais íngreme, mas não há volta, ele é único e certeiro é o caminho das flores e espinhos é o caminho do amor e do ódio da paz e da guerra, da felicidade e da tristeza, um paradoxo continuo reina em mim.
Como o tempo muda, rápido assim, já não esta mais aquele céu azul, agora ele têm um tom cinzento, tomou conta de tudo atrás da mesma janela.
Mesmo assim ainda é passível da mesma contemplação, por horas e horas.


De todas as lembranças; cravou-se em mim a saudável/saudade de seus olhos, lábios e pálpebras.
Essa realidade pura e insana por vezes é insuportavelmente sem sabor.
Nada somos/seriamos sem os sonhos...
Espero por você entre linhas e o espaço superficial que nos separa, espero por você.

Eu.

Wednesday, July 06, 2011

...

Eu cansei de procurar na cruz cristã, mas ele não estava lá, fui ao templo dos hindus, mas eu não consegui encontrar um traço dele em lugar algum.
Eu procurei nas montanhas, nos vales, mas nem nas alturas, nem nas profundezas fui capaz de encontrá-lo.
Eu fui para Caaba, em Meca, mas ele não estava lá.
Eu questionei estudiosos e filósofos, mas ele foi além de sua compreensão.
Então eu olhei no meu coração, e foi lá onde ele morava, lá que eu o vi.
Ele não poderia ser encontrado em nenhum outro lugar.

Rumi (1237A.D)
Poeta Persa.

Tuesday, July 05, 2011

in memorian.

NOITES BRANCAS


F. DOSTOIEVSKI


PRIMEIRA NOITE



Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e capri­chosos? A própria pergunta é pueril, muito pueril, mas oxalá o Senhor, amigo leitor, lha possa inspirar muitas vezes!...

Meditando sobre senhores caprichosos e irritados, não pude impedir-me de recordar a minha própria conduta — irrepreen­sível, aliás — ao longo de todo esse dia. Logo pela manhã, fora atormentado por um profundo e singular aborrecimento. Subitamente afigurou-se-me que estava só, abandonado por todos, que toda a gente se afastava de mim. Seria lógico, na verdade, que perguntasse a mim mesmo: mas quem é, afinal, «toda a gente»? Na realidade, embora viva há oito anos em Sampeters­burgo, quase não consegui estabelecer relações com outras pessoas. Mas que necessidade tenho eu de relações? Conheço já todo Sampetersburgo e foi talvez por isso que me pareceu que toda a gente me abandonava, quando todo o Sampetersburgo se ergueu e bruscamente partiu para o campo. Fui tomado pelo receio de me encontrar só e durante três dias inteiros errei pela cidade mergulhado numa profunda melancolia, sem nada com­preender do que se passava comigo.

Percorri a Perspectiva, fui ao Jardim, errei através do cais1, e não vi sequer um dos rostos que encontrava habitualmente nesses mesmos locais, sempre à mesma hora e ao longo de todo o ano. Eles, evidentemente, não me conhecem, mas eu conheço­-os. Conheço-os intimamente. Estudei as suas fisionomias — sinto-me feliz quando estão alegres e fico acabrunhado quando se velam de tristeza. Estabeleci laços quase de amizade com um velhinho que todos os dias encontro, sempre à mesma hora, na Fontanka2. Tem uma expressão muito grave e pensativa e sussurra permanentemente, falando consigo mesmo, agitando a mão esquerda enquanto com a direita segura uma longa e nodosa bengala com um castão de ouro. Ele próprio me reco­nhece, dedicando-me um cordial interesse. Se, por qualquer eventualidade, eu não aparecesse à hora do costume nesse tal sitio habitual na Fontanka, tenho a certeza de que teria um acesso de melancolia. Assim, sentimos, por vezes, a tentação de nos cumprimentarmos, principalmente, quando estamos am­bos de bom humor. Recentemente, como não nos víssemos há já dois dias, ao terceiro, quando nos encontramos, íamos já a levar as mãos aos chapéus, mas reprimimos a tempo essa intenção, baixamos os braços e passamos com simpatia um pelo outro.

Para mim, também as casas são velhas amigas. Quando pas­seio, cada uma delas parece correr ao meu encontro na rua: olha-me com todas as suas janelas, dizendo-me algo como isto: «Bom dia! Como estás? Eu vou bem, graças a Deus, muito obrigada! Em Maio vão-me aumentar um andar.» Ou: «Como vais? Amanhã vou entrar em obras.» Ou: «Estive quase a arder e tive bastante medo.» E outras coisas semelhantes.

Tenho algumas preferidas, íntimas. Uma delas tem intenções de fazer uma cura, neste Verão, nas mãos de um arquiteto. Irei vê-la todos os dias, não vá ele matá-la; nunca se sabe. Deus a guarde!

Nunca esquecerei a história de uma linda e pequena casa cor-de-rosa claro. Era uma casinha de pedra, olhava-me com um ar tão afável e mirava tão orgulhosamente as suas frias vizinhas, que o meu coração se alegrava sempre que passava diante dela. Subitamente, na semana passada, ia a passar na rua, olhei para a minha amiga e que ouço eu? Um grito dilacerante: «Pintaram-me de amarelo!» Malandros! Bárbaros! Não tiveram piedade de nada, nem das colunas, nem das cornijas; eis a minha amiga amarelo-canário. Quase tive, por causa disto, um derramamen­to de bílis, e até agora não tive coragem para ir ver a pobrezinha, estropiada, pintalgada com as cores do Celeste Império.

Por aqui já vê, amigo leitor, como tenho relações com todo Sampetersburgo.

Já disse que durante três dias fui atormentado por uma grave inquietação até ao momento em que descobri a sua causa. Na rua sentia-me indisposto (este ausentou-se, aquele saiu da cidade; para onde terá ido aquele outro?), e na minha casa também me sentia mal. Passei duas noites a perguntar a mim mesmo: que faltará no meu quarto?; por que razão me incomo­dará tanto aqui estar? — e, perplexo, examinava as paredes verdes, enegrecidas de fumo, o tecto coberto pela teia de aranha, com tanto êxito cultivada por Matriona, passei em revista todo o meu mobiliário, examinei cadeira por cadeira: não estará aqui o mal (pois se uma só cadeira: que seja não estiver no seu lugar habitual já não me sinto bem)? Olhava pela janela — trabalho perdido: não conseguia o menor alívio! Fui ao ponto de chamar Matriona e de ali mesmo lhe dirigir uma paternal censura por causa da teia de aranha e, de uma maneira geral, pela sua falta de asseio: ela limitou-se, porém, a olhar-me surpreendida; virando-me as costas sem proferir uma única palavra, de modo que a teia de aranha pende ainda intacta do tecto. Em suma, apenas esta manhã adivinhei do que se trata. Eh, não há dúvida de que foi para se livrarem de mim que eles fugiram para o campo!

Perdoem-me a vulgaridade com que me exprimo: não me sinto com disposição para usar um estilo requintado...; a verdade é que todo o Sampetersburgo fugira ou partira para o campo; a verdade é que todos os respeitáveis cavalheiros da burguesia tinham, aos meus olhos, o ar de quem está em vias de tomar um fiacre; como respeitáveis pais de família que, após o trabalho quotidiano, se dirigissem sem bagagens para o seio da família que estava no campo; a verdade é que todos os transeun­tes tinham agora um ar completamente especial que parecia dizer a cada pessoa que com eles se cruzava algo como isto: «Bem sabem, só aqui estamos de passagem. Dentro de duas horas partimos para o campo.» Se acaso via abrir-se uma janela em cujas vidraças haviam tamborilado uns dedinhos delicados, brancos como o açúcar, e debruçar-se para a rua a cabecinha de uma linda rapariga para chamar o vendedor de vasos de flores, de repente parecia-me que aquelas flores eram compradas por comprar (isto é, de modo algum para usufruir da Primavera e de flores na atmosfera sufocante de um quarto) e que em breve, rapidamente, iriam todos para o campo levando-as consigo.

Além disso, fizera já progressos tais dentro desta ordem particular de descobertas, nova para mim, que podia agora, infalivelmente, à primeira vista, determinar para que aldeia tinha ido esta ou aquela pessoa. Os turistas de Kamenny Ostrov e das ilhas Aptekarsky ou da estrada de Peterhof3 distinguiam­-se pela estudada elegância das suas maneiras, pelos seus moder­nos fatos de Verão e pelas belas carruagens em que se desloca­vam à cidade. Os habitantes de Pargolovo4 e das povoações mais afastadas distinguiam-se imediatamente pela sua sensatez e pelo seu ar grave. Os visitantes de Krestovski Ostrov5 eram reconhecíveis pela sua imperturbável jovialidade.

Encontrava, acidentalmente, uma longa procissão de carro­ceiros que caminhavam indolentemente, segurando as rédeas nas mãos, a par dos seus carros carregados de móveis diversos, mesas, cadeiras, divãs turcos e outros, e mais material domésti­co em cima do qual ia muitas vezes, sentada, no topo de toda aquela pilha, uma magra criada vigiando ciosamente os haveres dos seus amos; via as barcas pesadamente carregadas de uten­sílios domésticos, deslizando sobre o Neva ou sobre o Fontan­ka, dirigindo-se para o rio Negro ou para as Ilhas6 e, carroças ou barcas, multiplicavam-se por dez, por cem, aos meus olhos. Parecia-me que tudo se pusera em marcha pelas estradas, que todos emigravam, em enormes caravanas, para os campos e que Sampetersburgo ameaçava transformar-se num deserto, de tal modo que acabei por ficar envergonhado, humilhado, aflito: eu não tinha sequer um lugar no campo para onde ir, nem qualquer razão para o fazer. Estava, no entanto, disposto a partir a pé, com cada carroça que passava, a acompanhar cada cavalheiro de aparência respeitável que alugava um fiacre. Nem um só, porém, absolutamente ninguém, me convidou: como se eu estivesse esquecido, como se, na verdade, fosse um estranho para eles!

Andei muito e durante muito tempo, de tal modo que chegara já ao ponto de, conforme era meu hábito, esquecer onde estava, quando, de súbito, me encontrei às portas da cidade. Senti-me, num instante, tomado de alegria e passei a barreira. Avancei então pelo meio de campos semeados e de prados. Não experi­mentava a mínima fadiga, sentindo apenas, com toda a força do meu ser, que uma espécie de fardo deixava de pesar sobre a minha alma. Todos os transeuntes me olhavam tão amavelmente que por pouco ter-me-iam cumprimentado; respiravam, todos eles, uma espécie de contentamento e todos eles, sem excepção, fumavam charutos. Eu também me sentia contente como nunca me sentira antes. Dir-se-ia que subitamente fora transportado para Itália, de tal modo o esplendor da natureza me deslumbra­va, a mim, citadino meio enfermo, meio asfixiado entre as minhas quatro paredes.

Existe algo muito comovente, difícil de exprimir, na paisa­gem dos arredores de Sampetersburgo quando, à aproximação da Primavera, manifestando subitamente toda a sua violência, todas as forças que recebeu do Céu, se cobre de viçosa verdura, se adorna com o colorido das flores... Faz-me involuntariamen­te lembrar uma jovem macilenta que olhássemos umas vezes com piedade, outras com uma paciência complacente e cuja presença quase não notamos, até que, de repente, num instante lhe encontramos uma maravilhosa e inexplicável beleza, ao mesmo tempo que, estupefactos, nervosos, nos interrogamos contrariados: que força terá feito brilhar com um tal fulgor estes olhos pensativos e tristes? Que terá tingido de sangue estas faces magras e pálidas? Que terá acendido a paixão nestes delicados traços? Por que motivo arfa deste modo este peito? Que terá, tão subitamente, povoado de força, de vida e de beleza o rosto desta pobre rapariga, iluminando-o com semelhante sorriso e enchendo-o de uma alegria tão radiosa e fulgurante? Olharemos em torno de nós, procuraremos alguém, adivinharemos... Mas, passado este instante, encontraremos talvez no dia seguinte novamente o mesmo olhar pensativo e distraído que tinha antes, o mesmo rosto pálido, a mesma submissão e timidez nos movimentos e até mesmo um arrependimento e os vestígios de um mortificante aborrecimento ou despeito por aquele arrebata­mento de um minuto... Lamentaremos então que aquele fulgor, que aquela efêmera beleza, tenha tão depressa, tão irrevogavelmente, fenecido — lamentaremos por não termos sequer tido tempo de a amar...

E no entanto a minha noite foi mais proveitosa do que o dia! Eis como as coisas se passaram:

Regressei muito tarde à cidade e já tinham dado as dez horas quando me aproximei da minha casa. O caminho que percorri passava junto do cais do canal, onde, àquela hora, não se encontrava vivalma. Na realidade, moro num bairro bastante afastado. Caminhava cantando, pois quando estou contente gosto de cantarolar, como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicida­de não tem com quem Compartilhar a sua alegria. Subitamente, aconteceu-me a mais inesperada das aventuras.

Num recanto, apoiada ao parapeito da muralha, estava uma mulher. Com os cotovelos apoiados no gradeamento, parecia olhar com muita atenção a água turva do canal. Trazia um bonito chapelinho amarelo e uma encantadora mantilha negra. «É uma rapariga e certamente morena», pensei. Parecia não ouvir os meus passos e nem sequer se moveu quando passei por ela, retendo a respiração e com o coração a bater violentamente. «Estranho!», pensei «Deve ter, sem dúvida, uma grande preo­cupação»; e bruscamente detive-me, como que pregado ao solo. Sim, não me enganara: a jovem chorava. Um momento depois, ouvi um novo soluço. Santo Deus! O meu coração comprimiu-se de angústia. Embora habitualmente seja tímido com as mulheres, a verdade é que este caso era excepcional!... Voltei atrás, uns passos na sua direção e teria forçosamente dito:

«Menina!», se não tivesse a consciência de que esta exclamação fora pronunciada já mil vezes em todos os romances mundanos. Foi a única coisa que me deteve. Porém, enquanto procurava uma palavra, a jovem recompôs-se e, dominando-se, passeou um olhar em torno de si, baixou a cabeça e deslizou à minha frente ao longo do canal. Imediatamente, caminhei em sua perseguição, mas ela, descobrindo-o, deixou o cais, atravessou a rua e foi para o passeio do outro lado. Não ousei atravessar, O meu coração palpitava como o de um pássaro apanhado numa armadilha. De súbito, uma casualidade veio em meu auxílio.

No passeio para que a rapariga atravessara surgiu subitamente, perto dela, um cavalheiro de fraque, com uma idade muito respeitável, mas com um ar que não o era tanto. Cambaleava, apoiando-se cautelosamente nas muralhas. A rapariga caminha­va apressada e timidamente, como sucede geralmente com as raparigas que não querem que se lhes ofereça para as acompa­nhar à noite até suas casas, e, por certo, o oscilante cavalheiro nunca a teria conseguido apanhar se a minha boa estrela o não tivesse induzido a recorrer a meios de circunstância. De repen­te, sem dizer palavra, o sujeito encheu-se de coragem e, com todas as suas forças, desatou a correr em perseguição da minha desconhecida. Ela fugia, célere como o vento, mas o senhor, embora cambaleando, ia ganhando terreno, até que a atingiu. Ela soltou um grito a eu:.. dei graças aos Céus pela excelente e nodosa bengala que trazia na mão direita. Num abrir e fechar de olhos, eis-me do outro lado da rua, e, também num abrir e fechar de olhos, o intruso deteve-se, tomou em consideração o meu pesado argumento, calou-se, ficou para trás, e apenas ‘quando íamos já muito longe me apostrofou em termos assaz enérgicos. As suas palavras, porém, perderam-se na distância.

— Dê-me o braço — disse à desconhecida —, pois assim ele não ousará voltar a abordá-la.

Silenciosa, estendeu-me o braço ainda trêmulo de emoção e de susto. Oh, intruso, como te abençoei naquele momento! Olhei-a furtivamente: conforme calculara, era muito bela e morena; sob as suas pestanas negras brilhavam ainda pequenas lágrimas, lágrimas provocadas pelo susto recente ou pelo des­gosto que a fizera chorar junto da muralha, não sabia. Nos seus lábios, contudo, resplandecia já um sorriso. Olhou-me também de soslaio, enrubesceu levemente e baixou os olhos.

— Está a ver, Se não me tivesse repelido, nada disto acontecido...

— Mas eu não o conhecia. Julguei que o senhor também...

— E agora, já me conhece? ­

— Um pouco. Olhe, por exemplo, porque treme?

— Oh! Adivinhou logo! — respondi, entusiasmado com o fato de aquela jovem ser inteligente: a inteligência só favorece beleza. — Sim, logo à primeira vista adivinhou quem eu era. Com efeito, sou tímido com as mulheres, não nego que estou emocionado, pelo menos tanto como a menina o estava há momentos, quando aquele sujeito a assustou... Sinto uma espécie de medo, nesta altura. Dir-se-ia que vivo num sonho, mas mesmo em sonhos nunca acreditei que poderia um dia falar com uma mulher, fosse ela quem fosse...

— O quê? Será possível?...

— Sim, a minha mão treme, pois nunca nela se apoiou uma tão linda mãozinha... Perdi completamente o hábito de lidar com mulheres; isto é, nunca tive esse hábito... Bem vê, vivo só. Nem sei como se lhes deve falar. Olhe, ainda agora, consigo, não sei se já lhe disse alguma tolice. Se assim aconteceu, diga-­mo francamente, pois aviso-a de que não sou susceptível...

— Não, não disse qualquer tolice, antes pelo contrário. E se na verdade quer que lhe seja sincera, pois bem, dir-lhe-ei que mulheres apreciam essa timidez. E se ainda quer que vá mais longe, digo-lhe que não fujo à regra e que não o despedirei até me ter acompanhado a casa.

— Dada a maneira como me está a tratar — comecei, anelante de entusiasmo —, deixarei agora mesmo de ser tímido e, então, adeus todas as minhas vantagens!...

— As suas vantagens? Mas quais vantagens? Isso é que já não está bem.

— Perdão, não insistirei. A palavra escapou-se-me. Mas como quer que num momento como este não tenha o desejo de...

— De agradar, talvez?

— É isso mesmo! Mas, por amor de Deus, seja benévola! Tente compreender-me. Tenho já vinte a seis anos, bem vê, e nunca me relacionei com ninguém. Assim, como quer que fale como deve ser, com à-vontade e oportunamente? Será melhor para ambos se falarmos com sinceridade... Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar. Bem, mas é a mesma coisa... Poderá acreditar-me? Nem uma mulher, nunca, nunca! Nem sequer um amigo! Apesar disso, todos os dias sonho que, finalmente, tarde ou cedo, encontrarei alguém. Ah, se soubesse quantas vezes me apaixonei desta maneira!

— Mas como? Por quem se apaixonou então?

— Por ninguém, por um ideal, apenas, por aquela que em sonhos me visita. Criei, nos meus sonhos, romances completos! A verdade é que não me conhece! A bem dizer, não podia ser de outra maneira: encontrei duas ou três mulheres — mas seriam elas mesmo mulheres? Eram sempre criadas ou donas de casa que... Vou fazê-la rir se lhe disser que tentei, por mais de uma vez, entabular conversa, como agora fazemos, muito simplesmente, com uma aristocrata, na rua, estando ela sozinha, evidentemente; entabular conversa, claro, timidamente, respei­tosamente, apaixonadamente. Dizer-lhe que morro de solidão, que não me repila, que não tenho maneira de conhecer nenhuma mulher, dando-lhe mesmo a entender que é dever das mulheres não recusar a tímida súplica de um homem tão infeliz como eu. Que, em suma, tudo o que peço se resume a dirigir-me algumas palavras fraternas, uma ou duas palavras de afeto, a não me repelir logo à primeira tentativa, a acreditar na minha boa-fé, a escutar o que lhe disser a zombar de mim, se assim entender, mas a dar-me esperança dizendo-me duas palavras, duas pala­vras apenas, mesmo com a condição de nunca mais nos ver­mos!... Está-se a rir... De fato, o que lhe digo não para menos...

— Não se zangue. Rio-me, pois o senhor é o seu próprio inimigo, pois, se o tivesse tentado, teria talvez obtido êxito, mesmo que isso se passasse na rua: quanto mais simples se é, melhor... Não haveria nenhuma mulher, a não ser que fosse uma tola ou então que estivesse de mau humor nesse momento, que tivesse coragem de lhe recusar essas duas palavras que lhe implorava tão timidamente... Pensando melhor, que digo eu? Certamente que o tomaria por um louco. A verdade é que julgo as outras por mim. Bem sei como esta gente é!

— Agradeço-lhe muito! — exclamei. Nem sequer pode compreender o bem que acaba de me fazer!

— Bem, bem! Diga-me lá uma coisa: como concluiu que eu era a mulher que... que o ia considerar digno de atenção, de afeto... em suma, que não era uma criada ou uma dona de casa, como as outras de que falou? Por que razão decidiu a abordar-me?

— Porquê? Porquê? Talvez porque estava só, porque aquele cavalheiro era demasiado atrevido, por ser de noite: tem de reconhecer que não podia fazer outra coisa que era o meu dever...

— Não, não. Refiro-me a momentos antes, junto da muralha.

— Não é verdade que tinha já nessa altura a intenção de me abordar?

— Junto da muralha? Mas, na realidade, nem sei como lhe responder, temo... Sabe? Hoje sentia-me feliz, caminhava, cantava, tinha ido até aos arrabaldes, nunca vivera horas de tanta alegria. E a menina.., talvez tenha sido só impressão minha.., enfim, desculpe-me se lho recordo, mas tive a impres­são de que chorava, e então eu.... não suportei tal coisa... o coração apertou-se-me... Meu Deus, não teria acaso o direito de me entristecer por sua causa? Terá sido pecado experimentar por si uma fraterna compaixão?... Desculpe, eu disse «compai­xão»... Em suma, para terminar, tê-la-ei ofendido por me ter ocorrido involuntariamente a idéia de me dirigir a si?...

— Deixe! Basta! Não continue... — interrompeu, baixando a cabeça e apertando-me a mão. — Fui eu quem andou mal em lhe ter falado nisto... Mas sinto-me feliz por não me ter enganado a seu respeito... Chegamos já perto da minha casa, é ao fundo desta rua, a dois passos daqui.. Adeus, estou-lhe muito grata...

— Então é possível? Será possível que não nos voltemos a ver... Tudo ficará por aqui?

— Está a ver? — respondeu, rindo-se. —Primeiro só queria duas palavras, e agora... Mas, de fato, não lhe direi adeus... Pode ser que nos voltemos a encontrar...

— Virei amanhã. Oh, desculpe-me, eis-me já a exigir.

— Sim, o senhor está impaciente quase exige...

Escute-me só por um momento! — interrompi-a. — Perdoe-me se lhe digo mais uma coisa... É o seguinte: não posso deixar de aqui voltar amanhã. Sou um sonhador; a minha vida real tão reduzida que momentos como estes que agora vivo são para mim de tal modo preciosos que não poderei evitar de os reproduzir nos meus sonhos. Sonharei consigo toda a noite, toda a semana, todo o ano. Voltarei obrigatoriamente aqui amanhã, justamente aqui, a este mesmo local, a esta mesma hora, e sentir-me-ei feliz por recordar o que hoje aconteceu. Doravante, este lugar é sagrado para mim. Tenho já dois ou três locais como estes em Sampetersburgo. Uma vez, cheguei mesmo a chorar por causa de uma recordação semelhante à que de si vou guardar... Quem sabe, talvez que também a si, há dez minutos, fosse uma recordação que a fazia chorar... Mas desculpe-me, esqueci-me novamente... Talvez que um dia a menina tenha sido particularmente feliz aqui...

— Bem — disse a jovem —, admitamos, voltarei aqui amanhã, às dez horas, como hoje. Vejo que não o posso impedir... A verdade é que tenho necessidade de aqui vir; não vá julgar que lhe concedo uma entrevista. Repito-lhe, tenho de vir aqui por razões pessoais. Mas, está bem... Vamos lá, dir-lho-ei com franqueza: não me desagradará se o encontrar. Além de mais, pode suceder-me algum dissabor como o de hoje... Em suma, agradar-me-ia vê-lo novamente.., para lhe dizer duas palavras. No entanto, veja bem, não vá julgar-me mal, não creia que habitualmente concedo entrevistas com tanta facilidade... Não lho faria se... Mas isto é o meu segredo! Só lhe ponho previamente uma condição...

— Uma condição? Fale, diga, diga já tudo; estou de acordo com tudo, estou pronto para tudo! — exclamei, entusiasmado. — Respondo por mim, serei obediente, respeitoso... bem me conhece...

— Justamente porque o conheço é que o convido para amanhã — respondeu, rindo. — Conheço-o já perfeitamente. Mas aten­ção, só pode vir com uma condição (seja suficientemente bom para fazer o que lhe peço, bem vê que lhe falo francamente): não se apaixone por mim... É impossível, asseguro—lho. Se quiser vir por amizade, será bem-vindo, aqui tem a minha mão... Mas por amor, não, suplico-lhe!

— Juro-lho! — exclamei, segurando a sua minúscula mão...

— Basta, não jure nada: sei que o senhor é inflamável como a pólvora. Não me censure por lhe falar assim. Se soubesse... Também eu não tenho ninguém com quem trocar palavras, a quem pedir um conselho. Como é evidente, não é na rua que se deve procurar conselheiro, mas o senhor é uma excepção. Conheço-o como se fôssemos amigos há vinte anos... Não é verdade que não me trairá?...

— Vai ver... Só não sei como vou passar toda esta noite e todo o dia de amanhã.

— Durma bem. Desejo-lhe, uma boa noite e lembre-se de que confiei em si. O senhor ainda há pouco dizia que é preciso darmos conta de cada um dos nossos sentimentos, até mesmo de uma fraterna amizade! Disse isso de tal modo que subitamente me ocorreu a idéia de lhe confiar...

— O quê, por amor de Deus? Confiar-me o quê?

— Até amanhã! Que isso permaneça por ora como um segre­do. E melhor para si: pelo menos, assim isto parecer-lhe-á um romance. Pode ser que lho diga... Falaremos primeiro e travare­mos um conhecimento mais amplo...

— Eu contar-lhe-ei amanhã toda a minha história! Mas o que se passa? Dir-se-ia que algo de prodigioso me aconteceu... Onde estou eu, meu Deus? Então, diga-me: não se sente contente por não se ter zangado comigo, como teria sucedido com qualquer outra, de não me ter imediatamente repelido? Em dois minutos tomou-me feliz para sempre! Sim, feliz! Quem sabe, talvez tenha conseguido reconciliar-me comigo mesmo, resolvido as minhas dúvidas... Talvez que fique para sempre preso a estes minutos... Enfim, amanhã contar-lhe-ei tudo, saberá tudo...

— Está bem, aceito. O senhor falará primeiro....

— De acordo.

— Até amanhã!

— Até amanhã!

E separamo-nos. Caminhei pelas ruas durante toda a noite: não me decidia a voltar ao meu quarto. Sentia-me tão feliz...

Até amanhã!