Saturday, July 31, 2010

Pela manhã (Garota com sabor de cravo nos lábios )

As nuvens lá fora estão distantes, muito distantes, o sol aponta no céu.
Esses dias sempre nos oferecem possibilidades até então impossíveis, nesses últimos dias, aqui nessa região, captar o céu em seu estado puro, totalmente azul, aquele azul dos sonhos, lindo, poucas nuvens suspensas ao longe, lembram almofadas de algodão, aquela vontade que vêm de sentar-se. Eu sempre me repito, mas qual beleza única e pura não deverá ser relembrada e sentida? Poucas são as pessoas que “cultuam” olhar o céu e contempla-lo, poucas, talvez haja uma explicação concreta para isso, esse tempo voraz que a todos consome que há todos acorrenta. Confesso, é preciso “fugir” desse estado de putrefação da sensibilidade, esse estado que todos têm, mas poucas percebem. Quebrar as “regras” da mesmice não é nada fácil, aliás, poucos conseguem faze-lo, se tornou um desafio nos dias atuais, fazer cada dia valer mais e mais, dedicar um sorriso ao desconhecido, um abraço a alguém o qual não se vê há tempos, amenidades as quais fazem extrema diferença no especo que nos separa, eu e você, no especo que separa todos de todos. Sentar-se na calçada e observar o movimento cadenciado das formigas me parece algo interessante, haja vista o que nos cerca lá fora, não abro mão disso, jamais. As borboletas e suas multicores, silhuetas ainda continuam sendo um dos grandes “vícios” aos meus olhos, assim como as pálpebras assistidas em corredores e vielas. Continuo seguindo o caminho que às vezes me parece mais ingrime, mas não há volta ele é único e certeiro é o caminho das flores e espinhos é o caminho do amor e do ódio da paz e da guerra, da felicidade ou tristeza, tudo depende como andarmos nele.
Nós o fazemos, talvez em parte, mas o fazemos...
Como o tempo muda, rápido assim, já não esta mais aquele céu azul, agora um tom cinzento tomou conta de tudo atrás da janela.
Mesmo assim ainda é passível da mesma contemplação.

De todas as lembranças; cravou-se em mim a saudável/saudade de seus olhos, lábios e pálpebras.
Essa realidade pura e insana por vezes é insuportavelmente sem sabor.
Nada somos/seriamos sem os sonhos...
Espero por você entre linhas e o espaço superficial que nos separa, espero por você.


Eu.

...

Tudo mudou. Homens, coisas e animais mudaram de lã ou de pele. As palavras já não são as mesmas do tempo em que estudávamos gramática com os olhos míopes das professoras. Nádegas e pernas das mestras – objeto direto do nosso desejo – ofuscavam o interesse pela didática. Olho o mundo de todos os ângulos possíveis e tudo me parece oblíquo. É a civilização globalizada, a cultura de massa, a sagração do factóide, a fragmentação dos idiomas. Corta-se a palavra em frações microscópicas. A vida, o amor, a morte, a realidade:
tudo agora virou fast food.

*Sobre o autor:
Cearense, Francisco Carvalho nasceu em 1927 em São Bernardo das Russas, interior do Ceará. Poeta e ensaísta, é conhecido por seu valor literário e reverenciado pelos mais diversos críticos do país.

...

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.


*Sobre a autora:
Clarice Lispector, (1920 — 1977) escritora, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva, buscava exprimir, através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise.

Wednesday, July 21, 2010

Andara

Andando em dias de céu azul, pele alva, arde com o sol forte.
Queima, assim como paixões em semanas despedaçadas.
Andar em ruas de calçadas paralelas, olhos se alimentam de olhos.
Mãos devidamente amparadas por minúsculas ampolas de sal, caustico e frio.
Coração pulsa em batidas avulsas, desmedidas são as horas, solitárias depois das 6 da tarde, com ela.
Sonhos trilhados em linhas retilíneas sobem e descem, montanhas sem queda.
Lábios de carvão, umedecidos pela garoa fina, chuva de plástico.
Pétalas roxas habitam a caixa desbotada, presente sem cor em dias de luto.
Movimentos disformes sob a cama angular, fragrâncias no cetim.
Orações quando o sol se põe, saudades invisíveis.
Visíveis com ela.
Pés descalços sobre a grama azulada.
Amigos de gelo.
Amores flutuantes, espuma de vidro.
No brilho da estrela cintilante, esconde-se a promessa desfeita, efêmera.


Eu.

Poesia feita na palma das mãos

Pintei o chão com giz em brasa
Gelo nos lábios
Agora, só a chuva apaga.
Cachoeira sem queda
Carvão na linha dos olhos
Umedecidos pela chuva
Abrem-se os poros
Abraços desmedidos, retorcidos!

Fugazes lembranças
Ardem os olhos
Lembra aqueles dias de criança?
Dádiva de um anjo azul...
Nuvens em forma de almofadas
Atenho-me nas quimeras
Continuo a voar, agora sem asas...

Eu.

Sunday, July 11, 2010

Monocromático

Tenho visto a vida em preto e branco, monocromático são os tons.
As palavras têm pele, as sinto, transpiro.
Assim, as liberto!

Eu.

Tuesday, July 06, 2010

Ampulheta de pedra

Desde o último dia do ano de 1989, aquele garoto de olhos castanhos fogo, cabelos e braços soltos, assim ao vento...
Fez um coração no braço esquerdo, ficou como um selo.
Herança de uma garota que vestia negro.
Ambos vestiam. De cabeça baixa, lábio carnudo usava sapado de coro, tinha corpo franzino.
É certo que não dava importância às reuniões de família, só em caso extremo, tinha bom relacionamento com os pais, embora às vezes passace despercebido por todos, desleixado? Talvez... Enquadrar-se a padrões do censo comum sempre parecia ser algo difícil. Não o fazia.
Tinha sorriso tímido. Descrevê-lo é algo complicado, minucioso.
Guardava folhas secas em uma agenda lilás. Todas de uma árvore ao fundo de uma casa com tijolos a vista.
A casa estava vazia, noutro lado da cidade, ninguém ia até lá, apenas Léo, o nome que lhe foi dado em homenagem a um Tio já falecido.
As anotações eram feitas a lápis. Léo tinha os olhos sedentos.
Um hábito estranho de sentar-se ao meio-fio, e perceber o movimento retilíneo das formigas "gigantes". Adorava dias de chuva, mas abominava o guarda-chuva.
A janela do seu quarto dava para o céu. Fato esse que lhe proporcionava aventurar-se com as cores da palheta escondida debaixo da cama.
Ensaios noturnos. Madrugada adentra. Demorou um bom tempo para tomar essa atitude. Suas decisões costumavam ser lentas e arrastadas. Fazia orações todas às noites.
Certo dia resolveu dar vida às tintas deixadas pelo seu vovô Nicolau, um senhor distinto, que viveu longos 98 anos, todos dedicados a ensinar a arte.
O interesse, mesmo que tardio abraçou-o. Estava ali incrustado.
Com vazão repentina, libertou-se como a um pássaro de asas azuis.
Aliada as canções e livros, tomavam seu tempo. Tentava preenchê-lo.
Sentia extrema dificuldade em desfazer-se de adereços antigos.
Sentia falta de alguém especial a qual conheceu naquele último dia de ano, casualmente.
Foram acomeditos por olhares de canto em uma livraria central, ali pesquisando novos títulos, percebeu escritos em suas mãos.
Léo sorri discretamente. – Nossa! Faz poesias nas mãos?
Abre as mãos, posso vê-las?
Desde então se tornaram inseparáveis. Quando juntos, como se fosse combinado, ambos traziam cravos nos bolsos e papeis de seda.
Ela, uma garota com nome de Beatriz-mas seu nome de batismo era Anna-tentava incessantemente fugir das determinações paternas.
De tom carvão debaixo dos olhos, as unhas curtas, sem cor, cabelos avermelhados e de olhar penetrante, não gostava de andar de mãos dadas.
Adorava subir em cima de edifícios altos, estendendo os braços tentava pegar as nuvens.
Timidez velada.
Ouvir canções doces parecia ser o grande programa. Gastar o tempo de forma a não percebê-lo, ficava claro que essa era a intenção.
Abrochavam-se afinidades.
Encontros confidenciais na praça da cidade, sem hora marcada.
Sempre no mesmo banco de madeira. Quantas confissões foram ditas ali? Todas ao pé do ouvido, com vozes finas e sutis.
Não existia mais o tempo. Não esse tempo que todos conhecem e a todos consome. Apenas as mudanças do céu e das nuvens eram notadamente percebidas.
O tempo agora emboscado. Transcendências.
Plantaram algumas flores naquele jardim, rosas vermelhas, às vezes brancas.
Algumas marcelas do campo.
Pular os vagões de um trem abandonado em dias de sol.
Ali também trocavam postais da época vitoriana.
Vinho tinto às cinco horas da manhã.
Alguns hábitos tornaram-se insubstituíveis.
Dessa maneira simples e tênue o tempo para Léo e Beatriz não existiu.
Foram três estações primaveris e um intenso inverno juntos.
Tudo teve seu fim em um certo dia solar, quando desabrochou um pedaço de céu, e já não era mais cinza, e assim o sol mostrou um de seus olhos.
Tudo existiu, mesmo não existindo.

Eu.