Wednesday, December 21, 2011

Vinho e Filosofia barata

Silêncio oportuno.
Tão eloqüente quanto um discurso sem "substância".

Não leve a sério isso tudo, aqui nada é palpável assim que o mereça.
Nada.
Salvo raras exceções.

Eu.

Vinho + Filosofia

“A distinção entre países civilizados e incivilizados é a distinção entre os lugares onde bebem e onde não bebem”, diz o inglês Roger Scruton.

Autor de mais de 30 livros de ensaio, o filósofo conservador assinou, entre 2001 e 2009, uma coluna sobre vinhos na revista britânica New Statesman, que serviu de material para a obra em questão, descrita por Scruton como um guia não para a fruição da bebida e sim para pensá-la.

Recheado de referências a grandes filósofos, como Berkeley, Nietzsche e Russell, e sua relação com o vinho, o livro também faz ataques à obsessão pela forma física, aos líderes religiosos fanáticos e às regulamentações econômicas centralizadoras da Europa.

Bebo, Logo Existo
Roger Scruton
Trad.: Cristina Cupertino
Octavo
304 págs.
R$ 65

Fonte: Revista Cult.

Monday, December 12, 2011

Encanto

Apenas toca-me, de leve e sem medo, depois, como fazem os pássaros que voam de árvores imensas, volta em revoada e leva-me contigo...
Leva-me e não traz de volta.


O desencanto da perda será o alimento da esperança.

Eu.

Tuesday, December 06, 2011

32

Depois daquela chuva rápida de gotas finas ela cruzou a rua central da cidade baixa.
Trazia nos braços dois livros, tinham a capa manchada de sangue, ou seriam resquícios de vinho da noite passada? Onde atenuou a solidão em esquinas sem luz. A página trinta e dois marcada com uma folha azulada contia a poesia preferida, era de Rilke, seu poeta de todas as horas. Mesmo de pálpebras cansadas, acesas agora pela luz do sol radiante, inclina seus braços lisos sobre o banco da praça deserta. Cicatrizes na calçada lilás denunciam apegos.
Descansa o corpo franzino. Acometida por olhos de estranheza. Retira do casaco de couro negro um pedaço de seda em branco, despeja sensações rabiscadas com giz de cera. Brilham os lábios finos, são atrozes e insinuantes.
No peito delineasse um nome feito com miçangas.
A noite encosta, continua denunciando sonhos, vigiando o céu.
Sondando as nuvens.

Depois de uma bela taça de vinho tinto, essas palavras avulsas libertaram-se.
Cansaço na retina dos olhos, a madrugada sobrevive.
Vivendo.


Eu.

Tuesday, November 29, 2011

Passividade e utopia

Em suma, qualquer tipo de violência entre ditos SERES HUMANOS e/ou contra ANIMAIS é detestável, embora a HISTÓRIA nos mostre que a utópica passividade generalizada, esta longe de ser, infelizmente ou felizmente para muitos. Agora, paz seletiva, isso não, é hipocrisia, paz e não-violência em todas as esferas, utopia minha, é claro, com uma boa dose de sarcasmo e hipocrisia.


Eu.

...

Façamos o pacto da mediocridade em detrimento da boa conduta e afinidade com alienados.
ORDEM E PROGRESSO, e salve a hipocrisia humana.


Eu.

Wednesday, November 23, 2011

Ampulheta

Desde o último dia do ano de 1989 aquele garoto de olhos castanhos fogo, cabelos e braços soltos, assim ao vento... Fez um coração no braço esquerdo, ficou como um selo. Herança de uma garota que vestia negro. Ambos vestiam. De cabeça baixa, lábio carnudo usava sapado de coro, tinha corpo franzino. É certo que não dava importância às reuniões de família, só em caso extremo, tinha bom relacionamento com os pais, embora às vezes passasse despercebido por todos, desleixado? Talvez... Enquadrar-se a padrões do censo comum sempre parecia ser algo difícil. Não o fazia. Tinha sorriso tímido. Descrevê-lo é algo complicado, minucioso. Guardava folhas secas em uma agenda lilás. Todas de uma árvore ao fundo de uma casa com tijolos a vista. A casa era vazia, noutro lado da cidade, ninguém ia até lá, apenas Léo, o nome que lhe foi dado em homenagem a um Tio já falecido. As anotações eram feitas a lápis. Léo tinha os olhos sedentos. Um hábito estranho de sentar-se ao meio-fio. Perceber o movimento retilíneo das formigas gigantes. Adorava dias de chuva, mas abominava o guarda-chuva. A janela do seu quarto dava para o céu. Fato esse que lhe proporcionava aventurar-se com as cores da palheta escondida debaixo da cama. Ensaios noturnos. Madrugada adentro. Demorou um bom tempo para tomar essa atitude. Suas decisões costumavam serem lentas e arrastadas. Fazia orações todas às noites.
Certo dia resolveu dar vida às tintas deixadas pelo seu vovô Nicolau, um Senhor distinto que viveu longos 98 anos, todos dedicados a ensinar a arte. O interesse mesmo que tardio abraçou-o. Estava ali incrustado. Com vazão repentina liberou-o como a um pássaro.
Aliada as canções e livros, tomavam seu tempo. Tentava preenchê-lo. Sentia extrema dificuldade em desfazer-se de adereços antigos. Sentia falta de alguém especial a qual conheceu naquele último dia do ano, casualmente. Foram acomeditos por olhares de canto em uma livraria central. Ali pesquisando novos títulos, percebeu escritas em mãos. Léo sorri discretamente. – Nossa! Faz poesias nas mãos? Abre as mãos, posso vê-las?
Desde então se tornaram inseparáveis. Quando juntos, como se fosse combinado, ambos traziam cravos nos bolsos e papeis de seda. Ela, uma garota com nome de Beatriz-mas seu nome de batismo era Anna, tentava incessantemente fugir das determinações paternas. De tom carvão debaixo dos olhos, as unhas curtas, sem cor, cabelos avermelhados e de olhar penetrante, não gostava de andar de mãos dadas. Adorava subir em cima de edifícios altos, estendendo os braços tentava pegar nuvens. Ambos em timidez velada. Ouvir canções doces parecia ser o grande programa. Gastar o tempo de forma a não percebê-lo-ficava claro que essa era a intenção. Abrochavam-se afinidades. Encontros confidenciais na praça da cidade, sem hora marcada. Sempre no mesmo banco de madeira. Quantas confissões foram ditas ali... Todas ao pé do ouvido, com vozes finas e sutis. Não existia mais o tempo. Não esse tempo que todos conhecem e a todos consome. Apenas as mudanças do céu e das nuvens eram notadamente percebidas. O tempo dos homens estava agora emboscado. Transcendências. Plantaram algumas flores naquele jardim de local discreto, rosas vermelhas, às vezes brancas. Algumas marcelas do campo.
Pulavam entre os vagões de um trem abandonado em dias de sol. Ali também trocavam postais da época vitoriana. Vinho tinto às cinco horas da manhã. Alguns hábitos tornaram-se insubstituíveis. Dessa maneira simples e tênue o tempo para Léo e Beatriz não existiu.
Foram três estações primaveris e um intenso inverno juntos. Tudo teve seu fim em certo dia solar, quando desabrochou um pedaço de céu, que já não era mais cinza, e assim o sol mostrou um de seus olhos.
Tudo existiu, mesmo não existindo.


Eu.

Thursday, November 17, 2011

Desejos

O azul das asas era anil, (ou próximo a esse tom) como um brinco de pena que flutuava na linha dos olhos.
O desejo te tocar seus lábios com os dedos finos era incessante...
Demora e não vêm.
Ainda que seja assim, que assim seja.



Eu.

Saturday, November 12, 2011

a m o r

O “Amor” é naturalmente egoísta, porém, se posto que realmente seja amor, sem aspas ou reticências, e sim, puro em si, será paradoxalmente "altruísta"


Eu.

...

Falo muito mais de mim quando escrevo o motivo?
Não sei...
Talvez a pretensão de anonimato perene.



Eu.

Tuesday, November 08, 2011

Vida.

Esse começo de noite traz consigo o soar de uma canção que lembra um amor que se foi.
Penso na complexidade humana e sua impossibilidade em amar e ser amado intensamente, será uma utopia o amor recíproco e eterno?
Altruísta.
Você tão distante que me indaga sobre amores, quem sabe poderá me responder...
Pois acabo de ver algo que achava ser eterno ir para muito longe, sem promessa para voltar, tento me fazer forte a cada nova manhã, mas não nasci com tal destreza, sim, pois imagino ser algo de suma importância em nossos dias atuais, lidar com amores fugazes que vão sem deixar um adeus digno de sua existência.
Para aqueles que não sabem lidar com as perdas de nosso dia a dia, um amor que se vai é como uma flor agonizante em um jardim que lhe prometeu vinda perene.
Talvez seja apenas para os fracos essa real dor que cala, definitivamente não sei, mas porque não senti-la? Tentando extrair-lhe o mais puro e perspicaz que haja em si, o futuro reserva-lhe promessas positivas, tão certas como o par de chinelos que me espera ao lado da cama todas as manhãs, é o amor que deposito em alguém que ainda não conheço quem sabe nunca venha a conhecer.
Mas não deve ser tão lisérgico assim caminhar por dentre asperezas de uma vida tão inconstante, complexa como a convivência humana.
“O mistério do Amor é maior que o mistério da morte”, já dizia um saudoso poeta, Oscar Wilde é seu nome.
Incessantemente nos mostra que a vida é um lindo caminho a ser trilhado, mesmo trazendo em si dores descompassadas em horas impróprias, que tanto nos calejam a alma e coração. Sinto falta de palavras de afeto a me cercarem por todos os lados. Pensamentos trasbordam de minha mente, dando vazão ao infinito sem credito algum. Teço um mar de quimeras, onde não se permite finitudes nem orações em vão, a noite brilhará, é certo como a próxima gota de chuva que molha mais uma vez o canto escuro do quarto.
A felicidade é forte e visionária, como o garoto da esquina que solta à pipa sem o vento necessário.
Junto o pó dos dias inebriantes, murmuro uma nova cantiga, lembro-me então que a vida deve ser intensamente vivida, dias passam, noites adentram, e meu coração se torna cada vez mais furtivo.
Solucivo.
Quem sabe no próximo segundo a vida vira do avesso, hoje a insônia sufoca, amanhã adormeço, devo seguir tenro, eloqüente e sensível como minha alma nasceu, andando sobre a grama verde, pés descalços, mundo árduo, mundo plácido é nessa (dis)solução que eu sigo.
Essa noite não te quero mais... Sobreviver em meio ao constrangimento de não ser convidado a entrar.
Com meus olhos direcionados sempre para o céu, eu continuo, eu continuarei...


Eu.

Wednesday, November 02, 2011

...

Nada mais estupefato, insosso que a trama da realidade.
Portanto, fuga é o que me recorre.


Eu.

Tuesday, November 01, 2011

Eles.

Debaixo do cipestre amarelo, encostar os braços, estender as pernas e roer as unhas, um medo, medo da espera...
Ela usava camisetas com pétalas bordadas, ele tinha cravo nos bolsos...


Eu.

Saturday, October 29, 2011

Ela

Respiramos sem censura em demasia a "ilusão" de hoje?!



Ele.

Friday, October 28, 2011

Saudades

O Sol é de intensidade tênue, perpassa a fresta da janela com formato oblíquo.
Aquece espaços, até então intocáveis, abraça meu corpo franzino, diluindo-se como beijos de saudade.

Sinto saudades de você, sem mesmo conhecê-la, sem mesmo nunca ter visto seus olhos, sinto saudades de você!
Agora, muito mais que ontem!


Eu.

Monday, October 24, 2011

Como o céu, tudo se renova

Como impressiona o grau de envolvimento que se acaba tendo com certas "pessoas", não é um envolvimento, mas sim uma espécie de apego pelo qual nos sentimentos falsamente mais "seguros". É como algo o qual nos faz sentir como ilhas habitáveis, aqueles locais paradisíacos os quais seres raramente freqüentam, e por pouco tempo. Deixam-se marcas?
É óbvio que sim, mas na maioria das vezes são tênues, frágil e também fugaz, são esses, os quais se mostram e depois de algum tempo se escondem. É frágil como cristal.
O tempo é o maior dos vilões para mentes as quais os esquecimentos, apegos e sentidos de algo mútuo perduram. Algumas pessoas são de gelo, com o tempo derretem à que se respeitar, afinal sempre a máscara cai e os olhos, as atitudes são denunciadores de algo com extrema subjetividade, a princípio não há como (ante) ver.
A magia esta em saber que nem todos têm o mesmo grau de sensibilidade, isso é ótimo.
A qualquer hora pode-se ser magoado (a) intencionalmente ou não.
Aprender a lidar com nossos próprios fantasmas é o maior dos desafios.
"Só ficarei ao seu lado se assim desejar" de resto, se foi, e (in) felizmente veio a finitude.
Novos amigos, novos sonhos, novas realizações, decepções, novas pseudo-amantes, novas canções, novos filmes, telas de argila, estará tudo ai para se olhar, perceber e sentir.


Eu.

Monday, October 10, 2011

...

"Sou mestre na arte de falar em silêncio.
Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra".

Dostoiévsk.

Wednesday, October 05, 2011

...

Porque essa inclinação em ficar te enchendo de confissões minhas?
Acredito em suas palavras. Confio em você.
Gosta da garota de pele alva.
Olhar sinuoso.
Cabelos vermelhos.
Unhas negras.
Anda com poesia nos olhos.
Senta-se no banco da praça mais deserta, debaixo da árvore ressequida, sob a sombra mais intensa.
Depois da chuva forte, bate o sino da igreja, esta vazia, ás 18:00 horas.
Caminha através de pessoas que não vê.
Detêm-se a pequenos detalhes de sombra e luz.
Passa por ela mais uma vez a borboleta que vive já há cinco dias.
Bate as asas azuladas. Brilham.
O tom do céu muda com as horas. Carrega na bolsa de coro desbotado o livro predileto.
Na pagina trinta e sete tem a poesia que mais gosta. Rilke.
Solta-se. De impulso derradeiro capta olhares das nuvens.
Agora límpidas.
Aprecia figuras de anjos medievais.
Direciona-se e debruça sobre o banco de madeira o corpo franzino.
Braços abertos. Olhos de ferrugem.
Aquele olhar de cera que atravessa o sol.
Só a solidão ausenta-se.


Eu.

Thursday, September 15, 2011

Existencialismo (s)

No mundo contemporâneo e dito pós-moderno, pensar e/ou questionar em demasia esta intrinsecamente ligado a volumosas crises existenciais.
Portanto, sorte ou azar aos atônitos.

Eu.

Sunday, September 11, 2011

Acreditar-me

“O desacreditar pode ser a maior prova de uma crença subentendida".

Eu.

Saturday, September 10, 2011

À medida que o nosso amor progride, mais nos convencemos que Deus existe e de que a alma é imortal. Fedor Dostoievski

Thursday, September 01, 2011

Afetividade

A aplicabilidade em relação às ditas práticas humanas e suas relações, seja de conduta ética, moral ou afetiva se mostram inaplicáveis, a partir da complexidade que nos cerca. Criemos então "mundos paralelos" e utópicos de conduta, sejamos felizes e amorosos em um mundo contemporâneo de sonhos e devaneios. O amor salva! Eu.

Wednesday, August 24, 2011

A falta de liberdade não consiste jamais em estar segregado, e sim em estar em promiscuidade, pois o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho.


Fiodor Dostoievski

Wednesday, August 17, 2011

Andar-me (ei)

Andar, andar, e apenas andar-me, sem nada, no vazio das horas
Flores na porta dos sonhos, sem cores
Molduras ofuscadas, vivenciadas.
Vidas, amores...

Desliza sobre o ventre da noite
Miudezas de um dia caustico
Na simetria da aurora rachada
Embalo-me, sou sonho senil...

Dessa quimera translúcida, o porvir afoga
Os campos, esses fartos de grãos...
Ensejos, bocejos, seria delírio matinal?
Que seja.


Eu.

Tuesday, August 09, 2011

(...) Apenas depois da chuva.

Abriram-se cortinas em tom rosa

Aponta pela fresta um olho de sol

Desabrocham lábios em nuvens lilases

Brilham no espelho meus cabelos de areia



Eu.

Anjos Medievais

Anjos que se sentam sozinhos em pedra de mármore gelado.
Da noite se fez dia, do dia se fez noite.
Agora recolhem as asas após vôo assombrado.
Só os lábios denunciam...
Desses olhares de cera que atravessam as paredes erguidas com braços de ferro.
Só a solidão ausenta-se.


Eu.

Friday, July 29, 2011

Poesia feita na palma das mãos

Poesia feita na palma das mãos
Pintei o chão com giz em brasa
Gelo nos lábios
Agora, só a chuva apaga!

Cachoeira sem queda
Carvão na linha dos olhos
Umedecidos pela chuva
Abrem-se os poros

Abraços desmedidos, retorcidos!
Fugazes lembranças
Ardem os olhos
Lembra aqueles dias de criança?

Dádiva de um anjo azul
Nuvens em forma de almofadas
Atenho-me nas quimeras
Continuo a voar, agora sem asas...


Eu.

Tuesday, July 12, 2011

Pela manhã de ontem

As nuvens do lado de fora da janela estão distantes, muito distantes, são tão azuis como o mar em dias de gloria, o sol aponta no céu.
Esses dias sempre nos oferecem possibilidades até então impossíveis, nesses últimos dias, aqui nessa região, captar o céu em seu estado puro, totalmente azul, falo daquele azul dos sonhos, lindo, poucas nuvens suspensas ao longe, lembram almofadas de algodão.
Vem aquela vontade de sentar-se a beira do penhasco e dar vida a contemplação.
Eu sempre me repito, mas qual beleza única e pura não deverá ser relembrada e sentida?
Muitas e muitas vezes. Poucas são as pessoas que “cultuam” olhar o céu e contemplá-lo, suponho que devam ser muito poucas, talvez haja uma explicação mais concreta para isso; esse tempo voraz que a todos consome que há todos acorrenta.
Confesso, é preciso “fugir” desse estado de putrefação da sensibilidade, esse estado que todos têm, mas poucas percebem. Quebrar as regras da mesmice cotidiana não é nada fácil, aliás, poucos conseguem. Fazê-lo, se tornou um desafio nos dias atuais, fazer cada dia valer mais e mais, dedicar um sorriso ao desconhecido, um abraço a alguém o qual não se vê há tempos, ou mesmo que não se conhece quem nunca se viu, assim gratuitamente, amenidades essas as quais fazem extrema diferença no especo que nos separa, eu e você, no espaço que separa todos de todos. Sentar-se na calçada e observar o movimento cadenciado das formigas me parece algo interessante, haja vista o que nos cerca lá fora, não abro mão disso, jamais.
As borboletas e suas multicores, silhuetas ainda continuam sendo um dos grandes “vícios” aos meus olhos, assim como as pálpebras assistidas em corredores e vielas da minha alma. Continuo seguindo o caminho que às vezes me parece ser o mais íngreme, mas não há volta, ele é único e certeiro é o caminho das flores e espinhos é o caminho do amor e do ódio da paz e da guerra, da felicidade e da tristeza, um paradoxo continuo reina em mim.
Como o tempo muda, rápido assim, já não esta mais aquele céu azul, agora ele têm um tom cinzento, tomou conta de tudo atrás da mesma janela.
Mesmo assim ainda é passível da mesma contemplação, por horas e horas.


De todas as lembranças; cravou-se em mim a saudável/saudade de seus olhos, lábios e pálpebras.
Essa realidade pura e insana por vezes é insuportavelmente sem sabor.
Nada somos/seriamos sem os sonhos...
Espero por você entre linhas e o espaço superficial que nos separa, espero por você.

Eu.

Wednesday, July 06, 2011

...

Eu cansei de procurar na cruz cristã, mas ele não estava lá, fui ao templo dos hindus, mas eu não consegui encontrar um traço dele em lugar algum.
Eu procurei nas montanhas, nos vales, mas nem nas alturas, nem nas profundezas fui capaz de encontrá-lo.
Eu fui para Caaba, em Meca, mas ele não estava lá.
Eu questionei estudiosos e filósofos, mas ele foi além de sua compreensão.
Então eu olhei no meu coração, e foi lá onde ele morava, lá que eu o vi.
Ele não poderia ser encontrado em nenhum outro lugar.

Rumi (1237A.D)
Poeta Persa.

Tuesday, July 05, 2011

in memorian.

NOITES BRANCAS


F. DOSTOIEVSKI


PRIMEIRA NOITE



Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e capri­chosos? A própria pergunta é pueril, muito pueril, mas oxalá o Senhor, amigo leitor, lha possa inspirar muitas vezes!...

Meditando sobre senhores caprichosos e irritados, não pude impedir-me de recordar a minha própria conduta — irrepreen­sível, aliás — ao longo de todo esse dia. Logo pela manhã, fora atormentado por um profundo e singular aborrecimento. Subitamente afigurou-se-me que estava só, abandonado por todos, que toda a gente se afastava de mim. Seria lógico, na verdade, que perguntasse a mim mesmo: mas quem é, afinal, «toda a gente»? Na realidade, embora viva há oito anos em Sampeters­burgo, quase não consegui estabelecer relações com outras pessoas. Mas que necessidade tenho eu de relações? Conheço já todo Sampetersburgo e foi talvez por isso que me pareceu que toda a gente me abandonava, quando todo o Sampetersburgo se ergueu e bruscamente partiu para o campo. Fui tomado pelo receio de me encontrar só e durante três dias inteiros errei pela cidade mergulhado numa profunda melancolia, sem nada com­preender do que se passava comigo.

Percorri a Perspectiva, fui ao Jardim, errei através do cais1, e não vi sequer um dos rostos que encontrava habitualmente nesses mesmos locais, sempre à mesma hora e ao longo de todo o ano. Eles, evidentemente, não me conhecem, mas eu conheço­-os. Conheço-os intimamente. Estudei as suas fisionomias — sinto-me feliz quando estão alegres e fico acabrunhado quando se velam de tristeza. Estabeleci laços quase de amizade com um velhinho que todos os dias encontro, sempre à mesma hora, na Fontanka2. Tem uma expressão muito grave e pensativa e sussurra permanentemente, falando consigo mesmo, agitando a mão esquerda enquanto com a direita segura uma longa e nodosa bengala com um castão de ouro. Ele próprio me reco­nhece, dedicando-me um cordial interesse. Se, por qualquer eventualidade, eu não aparecesse à hora do costume nesse tal sitio habitual na Fontanka, tenho a certeza de que teria um acesso de melancolia. Assim, sentimos, por vezes, a tentação de nos cumprimentarmos, principalmente, quando estamos am­bos de bom humor. Recentemente, como não nos víssemos há já dois dias, ao terceiro, quando nos encontramos, íamos já a levar as mãos aos chapéus, mas reprimimos a tempo essa intenção, baixamos os braços e passamos com simpatia um pelo outro.

Para mim, também as casas são velhas amigas. Quando pas­seio, cada uma delas parece correr ao meu encontro na rua: olha-me com todas as suas janelas, dizendo-me algo como isto: «Bom dia! Como estás? Eu vou bem, graças a Deus, muito obrigada! Em Maio vão-me aumentar um andar.» Ou: «Como vais? Amanhã vou entrar em obras.» Ou: «Estive quase a arder e tive bastante medo.» E outras coisas semelhantes.

Tenho algumas preferidas, íntimas. Uma delas tem intenções de fazer uma cura, neste Verão, nas mãos de um arquiteto. Irei vê-la todos os dias, não vá ele matá-la; nunca se sabe. Deus a guarde!

Nunca esquecerei a história de uma linda e pequena casa cor-de-rosa claro. Era uma casinha de pedra, olhava-me com um ar tão afável e mirava tão orgulhosamente as suas frias vizinhas, que o meu coração se alegrava sempre que passava diante dela. Subitamente, na semana passada, ia a passar na rua, olhei para a minha amiga e que ouço eu? Um grito dilacerante: «Pintaram-me de amarelo!» Malandros! Bárbaros! Não tiveram piedade de nada, nem das colunas, nem das cornijas; eis a minha amiga amarelo-canário. Quase tive, por causa disto, um derramamen­to de bílis, e até agora não tive coragem para ir ver a pobrezinha, estropiada, pintalgada com as cores do Celeste Império.

Por aqui já vê, amigo leitor, como tenho relações com todo Sampetersburgo.

Já disse que durante três dias fui atormentado por uma grave inquietação até ao momento em que descobri a sua causa. Na rua sentia-me indisposto (este ausentou-se, aquele saiu da cidade; para onde terá ido aquele outro?), e na minha casa também me sentia mal. Passei duas noites a perguntar a mim mesmo: que faltará no meu quarto?; por que razão me incomo­dará tanto aqui estar? — e, perplexo, examinava as paredes verdes, enegrecidas de fumo, o tecto coberto pela teia de aranha, com tanto êxito cultivada por Matriona, passei em revista todo o meu mobiliário, examinei cadeira por cadeira: não estará aqui o mal (pois se uma só cadeira: que seja não estiver no seu lugar habitual já não me sinto bem)? Olhava pela janela — trabalho perdido: não conseguia o menor alívio! Fui ao ponto de chamar Matriona e de ali mesmo lhe dirigir uma paternal censura por causa da teia de aranha e, de uma maneira geral, pela sua falta de asseio: ela limitou-se, porém, a olhar-me surpreendida; virando-me as costas sem proferir uma única palavra, de modo que a teia de aranha pende ainda intacta do tecto. Em suma, apenas esta manhã adivinhei do que se trata. Eh, não há dúvida de que foi para se livrarem de mim que eles fugiram para o campo!

Perdoem-me a vulgaridade com que me exprimo: não me sinto com disposição para usar um estilo requintado...; a verdade é que todo o Sampetersburgo fugira ou partira para o campo; a verdade é que todos os respeitáveis cavalheiros da burguesia tinham, aos meus olhos, o ar de quem está em vias de tomar um fiacre; como respeitáveis pais de família que, após o trabalho quotidiano, se dirigissem sem bagagens para o seio da família que estava no campo; a verdade é que todos os transeun­tes tinham agora um ar completamente especial que parecia dizer a cada pessoa que com eles se cruzava algo como isto: «Bem sabem, só aqui estamos de passagem. Dentro de duas horas partimos para o campo.» Se acaso via abrir-se uma janela em cujas vidraças haviam tamborilado uns dedinhos delicados, brancos como o açúcar, e debruçar-se para a rua a cabecinha de uma linda rapariga para chamar o vendedor de vasos de flores, de repente parecia-me que aquelas flores eram compradas por comprar (isto é, de modo algum para usufruir da Primavera e de flores na atmosfera sufocante de um quarto) e que em breve, rapidamente, iriam todos para o campo levando-as consigo.

Além disso, fizera já progressos tais dentro desta ordem particular de descobertas, nova para mim, que podia agora, infalivelmente, à primeira vista, determinar para que aldeia tinha ido esta ou aquela pessoa. Os turistas de Kamenny Ostrov e das ilhas Aptekarsky ou da estrada de Peterhof3 distinguiam­-se pela estudada elegância das suas maneiras, pelos seus moder­nos fatos de Verão e pelas belas carruagens em que se desloca­vam à cidade. Os habitantes de Pargolovo4 e das povoações mais afastadas distinguiam-se imediatamente pela sua sensatez e pelo seu ar grave. Os visitantes de Krestovski Ostrov5 eram reconhecíveis pela sua imperturbável jovialidade.

Encontrava, acidentalmente, uma longa procissão de carro­ceiros que caminhavam indolentemente, segurando as rédeas nas mãos, a par dos seus carros carregados de móveis diversos, mesas, cadeiras, divãs turcos e outros, e mais material domésti­co em cima do qual ia muitas vezes, sentada, no topo de toda aquela pilha, uma magra criada vigiando ciosamente os haveres dos seus amos; via as barcas pesadamente carregadas de uten­sílios domésticos, deslizando sobre o Neva ou sobre o Fontan­ka, dirigindo-se para o rio Negro ou para as Ilhas6 e, carroças ou barcas, multiplicavam-se por dez, por cem, aos meus olhos. Parecia-me que tudo se pusera em marcha pelas estradas, que todos emigravam, em enormes caravanas, para os campos e que Sampetersburgo ameaçava transformar-se num deserto, de tal modo que acabei por ficar envergonhado, humilhado, aflito: eu não tinha sequer um lugar no campo para onde ir, nem qualquer razão para o fazer. Estava, no entanto, disposto a partir a pé, com cada carroça que passava, a acompanhar cada cavalheiro de aparência respeitável que alugava um fiacre. Nem um só, porém, absolutamente ninguém, me convidou: como se eu estivesse esquecido, como se, na verdade, fosse um estranho para eles!

Andei muito e durante muito tempo, de tal modo que chegara já ao ponto de, conforme era meu hábito, esquecer onde estava, quando, de súbito, me encontrei às portas da cidade. Senti-me, num instante, tomado de alegria e passei a barreira. Avancei então pelo meio de campos semeados e de prados. Não experi­mentava a mínima fadiga, sentindo apenas, com toda a força do meu ser, que uma espécie de fardo deixava de pesar sobre a minha alma. Todos os transeuntes me olhavam tão amavelmente que por pouco ter-me-iam cumprimentado; respiravam, todos eles, uma espécie de contentamento e todos eles, sem excepção, fumavam charutos. Eu também me sentia contente como nunca me sentira antes. Dir-se-ia que subitamente fora transportado para Itália, de tal modo o esplendor da natureza me deslumbra­va, a mim, citadino meio enfermo, meio asfixiado entre as minhas quatro paredes.

Existe algo muito comovente, difícil de exprimir, na paisa­gem dos arredores de Sampetersburgo quando, à aproximação da Primavera, manifestando subitamente toda a sua violência, todas as forças que recebeu do Céu, se cobre de viçosa verdura, se adorna com o colorido das flores... Faz-me involuntariamen­te lembrar uma jovem macilenta que olhássemos umas vezes com piedade, outras com uma paciência complacente e cuja presença quase não notamos, até que, de repente, num instante lhe encontramos uma maravilhosa e inexplicável beleza, ao mesmo tempo que, estupefactos, nervosos, nos interrogamos contrariados: que força terá feito brilhar com um tal fulgor estes olhos pensativos e tristes? Que terá tingido de sangue estas faces magras e pálidas? Que terá acendido a paixão nestes delicados traços? Por que motivo arfa deste modo este peito? Que terá, tão subitamente, povoado de força, de vida e de beleza o rosto desta pobre rapariga, iluminando-o com semelhante sorriso e enchendo-o de uma alegria tão radiosa e fulgurante? Olharemos em torno de nós, procuraremos alguém, adivinharemos... Mas, passado este instante, encontraremos talvez no dia seguinte novamente o mesmo olhar pensativo e distraído que tinha antes, o mesmo rosto pálido, a mesma submissão e timidez nos movimentos e até mesmo um arrependimento e os vestígios de um mortificante aborrecimento ou despeito por aquele arrebata­mento de um minuto... Lamentaremos então que aquele fulgor, que aquela efêmera beleza, tenha tão depressa, tão irrevogavelmente, fenecido — lamentaremos por não termos sequer tido tempo de a amar...

E no entanto a minha noite foi mais proveitosa do que o dia! Eis como as coisas se passaram:

Regressei muito tarde à cidade e já tinham dado as dez horas quando me aproximei da minha casa. O caminho que percorri passava junto do cais do canal, onde, àquela hora, não se encontrava vivalma. Na realidade, moro num bairro bastante afastado. Caminhava cantando, pois quando estou contente gosto de cantarolar, como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicida­de não tem com quem Compartilhar a sua alegria. Subitamente, aconteceu-me a mais inesperada das aventuras.

Num recanto, apoiada ao parapeito da muralha, estava uma mulher. Com os cotovelos apoiados no gradeamento, parecia olhar com muita atenção a água turva do canal. Trazia um bonito chapelinho amarelo e uma encantadora mantilha negra. «É uma rapariga e certamente morena», pensei. Parecia não ouvir os meus passos e nem sequer se moveu quando passei por ela, retendo a respiração e com o coração a bater violentamente. «Estranho!», pensei «Deve ter, sem dúvida, uma grande preo­cupação»; e bruscamente detive-me, como que pregado ao solo. Sim, não me enganara: a jovem chorava. Um momento depois, ouvi um novo soluço. Santo Deus! O meu coração comprimiu-se de angústia. Embora habitualmente seja tímido com as mulheres, a verdade é que este caso era excepcional!... Voltei atrás, uns passos na sua direção e teria forçosamente dito:

«Menina!», se não tivesse a consciência de que esta exclamação fora pronunciada já mil vezes em todos os romances mundanos. Foi a única coisa que me deteve. Porém, enquanto procurava uma palavra, a jovem recompôs-se e, dominando-se, passeou um olhar em torno de si, baixou a cabeça e deslizou à minha frente ao longo do canal. Imediatamente, caminhei em sua perseguição, mas ela, descobrindo-o, deixou o cais, atravessou a rua e foi para o passeio do outro lado. Não ousei atravessar, O meu coração palpitava como o de um pássaro apanhado numa armadilha. De súbito, uma casualidade veio em meu auxílio.

No passeio para que a rapariga atravessara surgiu subitamente, perto dela, um cavalheiro de fraque, com uma idade muito respeitável, mas com um ar que não o era tanto. Cambaleava, apoiando-se cautelosamente nas muralhas. A rapariga caminha­va apressada e timidamente, como sucede geralmente com as raparigas que não querem que se lhes ofereça para as acompa­nhar à noite até suas casas, e, por certo, o oscilante cavalheiro nunca a teria conseguido apanhar se a minha boa estrela o não tivesse induzido a recorrer a meios de circunstância. De repen­te, sem dizer palavra, o sujeito encheu-se de coragem e, com todas as suas forças, desatou a correr em perseguição da minha desconhecida. Ela fugia, célere como o vento, mas o senhor, embora cambaleando, ia ganhando terreno, até que a atingiu. Ela soltou um grito a eu:.. dei graças aos Céus pela excelente e nodosa bengala que trazia na mão direita. Num abrir e fechar de olhos, eis-me do outro lado da rua, e, também num abrir e fechar de olhos, o intruso deteve-se, tomou em consideração o meu pesado argumento, calou-se, ficou para trás, e apenas ‘quando íamos já muito longe me apostrofou em termos assaz enérgicos. As suas palavras, porém, perderam-se na distância.

— Dê-me o braço — disse à desconhecida —, pois assim ele não ousará voltar a abordá-la.

Silenciosa, estendeu-me o braço ainda trêmulo de emoção e de susto. Oh, intruso, como te abençoei naquele momento! Olhei-a furtivamente: conforme calculara, era muito bela e morena; sob as suas pestanas negras brilhavam ainda pequenas lágrimas, lágrimas provocadas pelo susto recente ou pelo des­gosto que a fizera chorar junto da muralha, não sabia. Nos seus lábios, contudo, resplandecia já um sorriso. Olhou-me também de soslaio, enrubesceu levemente e baixou os olhos.

— Está a ver, Se não me tivesse repelido, nada disto acontecido...

— Mas eu não o conhecia. Julguei que o senhor também...

— E agora, já me conhece? ­

— Um pouco. Olhe, por exemplo, porque treme?

— Oh! Adivinhou logo! — respondi, entusiasmado com o fato de aquela jovem ser inteligente: a inteligência só favorece beleza. — Sim, logo à primeira vista adivinhou quem eu era. Com efeito, sou tímido com as mulheres, não nego que estou emocionado, pelo menos tanto como a menina o estava há momentos, quando aquele sujeito a assustou... Sinto uma espécie de medo, nesta altura. Dir-se-ia que vivo num sonho, mas mesmo em sonhos nunca acreditei que poderia um dia falar com uma mulher, fosse ela quem fosse...

— O quê? Será possível?...

— Sim, a minha mão treme, pois nunca nela se apoiou uma tão linda mãozinha... Perdi completamente o hábito de lidar com mulheres; isto é, nunca tive esse hábito... Bem vê, vivo só. Nem sei como se lhes deve falar. Olhe, ainda agora, consigo, não sei se já lhe disse alguma tolice. Se assim aconteceu, diga-­mo francamente, pois aviso-a de que não sou susceptível...

— Não, não disse qualquer tolice, antes pelo contrário. E se na verdade quer que lhe seja sincera, pois bem, dir-lhe-ei que mulheres apreciam essa timidez. E se ainda quer que vá mais longe, digo-lhe que não fujo à regra e que não o despedirei até me ter acompanhado a casa.

— Dada a maneira como me está a tratar — comecei, anelante de entusiasmo —, deixarei agora mesmo de ser tímido e, então, adeus todas as minhas vantagens!...

— As suas vantagens? Mas quais vantagens? Isso é que já não está bem.

— Perdão, não insistirei. A palavra escapou-se-me. Mas como quer que num momento como este não tenha o desejo de...

— De agradar, talvez?

— É isso mesmo! Mas, por amor de Deus, seja benévola! Tente compreender-me. Tenho já vinte a seis anos, bem vê, e nunca me relacionei com ninguém. Assim, como quer que fale como deve ser, com à-vontade e oportunamente? Será melhor para ambos se falarmos com sinceridade... Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar. Bem, mas é a mesma coisa... Poderá acreditar-me? Nem uma mulher, nunca, nunca! Nem sequer um amigo! Apesar disso, todos os dias sonho que, finalmente, tarde ou cedo, encontrarei alguém. Ah, se soubesse quantas vezes me apaixonei desta maneira!

— Mas como? Por quem se apaixonou então?

— Por ninguém, por um ideal, apenas, por aquela que em sonhos me visita. Criei, nos meus sonhos, romances completos! A verdade é que não me conhece! A bem dizer, não podia ser de outra maneira: encontrei duas ou três mulheres — mas seriam elas mesmo mulheres? Eram sempre criadas ou donas de casa que... Vou fazê-la rir se lhe disser que tentei, por mais de uma vez, entabular conversa, como agora fazemos, muito simplesmente, com uma aristocrata, na rua, estando ela sozinha, evidentemente; entabular conversa, claro, timidamente, respei­tosamente, apaixonadamente. Dizer-lhe que morro de solidão, que não me repila, que não tenho maneira de conhecer nenhuma mulher, dando-lhe mesmo a entender que é dever das mulheres não recusar a tímida súplica de um homem tão infeliz como eu. Que, em suma, tudo o que peço se resume a dirigir-me algumas palavras fraternas, uma ou duas palavras de afeto, a não me repelir logo à primeira tentativa, a acreditar na minha boa-fé, a escutar o que lhe disser a zombar de mim, se assim entender, mas a dar-me esperança dizendo-me duas palavras, duas pala­vras apenas, mesmo com a condição de nunca mais nos ver­mos!... Está-se a rir... De fato, o que lhe digo não para menos...

— Não se zangue. Rio-me, pois o senhor é o seu próprio inimigo, pois, se o tivesse tentado, teria talvez obtido êxito, mesmo que isso se passasse na rua: quanto mais simples se é, melhor... Não haveria nenhuma mulher, a não ser que fosse uma tola ou então que estivesse de mau humor nesse momento, que tivesse coragem de lhe recusar essas duas palavras que lhe implorava tão timidamente... Pensando melhor, que digo eu? Certamente que o tomaria por um louco. A verdade é que julgo as outras por mim. Bem sei como esta gente é!

— Agradeço-lhe muito! — exclamei. Nem sequer pode compreender o bem que acaba de me fazer!

— Bem, bem! Diga-me lá uma coisa: como concluiu que eu era a mulher que... que o ia considerar digno de atenção, de afeto... em suma, que não era uma criada ou uma dona de casa, como as outras de que falou? Por que razão decidiu a abordar-me?

— Porquê? Porquê? Talvez porque estava só, porque aquele cavalheiro era demasiado atrevido, por ser de noite: tem de reconhecer que não podia fazer outra coisa que era o meu dever...

— Não, não. Refiro-me a momentos antes, junto da muralha.

— Não é verdade que tinha já nessa altura a intenção de me abordar?

— Junto da muralha? Mas, na realidade, nem sei como lhe responder, temo... Sabe? Hoje sentia-me feliz, caminhava, cantava, tinha ido até aos arrabaldes, nunca vivera horas de tanta alegria. E a menina.., talvez tenha sido só impressão minha.., enfim, desculpe-me se lho recordo, mas tive a impres­são de que chorava, e então eu.... não suportei tal coisa... o coração apertou-se-me... Meu Deus, não teria acaso o direito de me entristecer por sua causa? Terá sido pecado experimentar por si uma fraterna compaixão?... Desculpe, eu disse «compai­xão»... Em suma, para terminar, tê-la-ei ofendido por me ter ocorrido involuntariamente a idéia de me dirigir a si?...

— Deixe! Basta! Não continue... — interrompeu, baixando a cabeça e apertando-me a mão. — Fui eu quem andou mal em lhe ter falado nisto... Mas sinto-me feliz por não me ter enganado a seu respeito... Chegamos já perto da minha casa, é ao fundo desta rua, a dois passos daqui.. Adeus, estou-lhe muito grata...

— Então é possível? Será possível que não nos voltemos a ver... Tudo ficará por aqui?

— Está a ver? — respondeu, rindo-se. —Primeiro só queria duas palavras, e agora... Mas, de fato, não lhe direi adeus... Pode ser que nos voltemos a encontrar...

— Virei amanhã. Oh, desculpe-me, eis-me já a exigir.

— Sim, o senhor está impaciente quase exige...

Escute-me só por um momento! — interrompi-a. — Perdoe-me se lhe digo mais uma coisa... É o seguinte: não posso deixar de aqui voltar amanhã. Sou um sonhador; a minha vida real tão reduzida que momentos como estes que agora vivo são para mim de tal modo preciosos que não poderei evitar de os reproduzir nos meus sonhos. Sonharei consigo toda a noite, toda a semana, todo o ano. Voltarei obrigatoriamente aqui amanhã, justamente aqui, a este mesmo local, a esta mesma hora, e sentir-me-ei feliz por recordar o que hoje aconteceu. Doravante, este lugar é sagrado para mim. Tenho já dois ou três locais como estes em Sampetersburgo. Uma vez, cheguei mesmo a chorar por causa de uma recordação semelhante à que de si vou guardar... Quem sabe, talvez que também a si, há dez minutos, fosse uma recordação que a fazia chorar... Mas desculpe-me, esqueci-me novamente... Talvez que um dia a menina tenha sido particularmente feliz aqui...

— Bem — disse a jovem —, admitamos, voltarei aqui amanhã, às dez horas, como hoje. Vejo que não o posso impedir... A verdade é que tenho necessidade de aqui vir; não vá julgar que lhe concedo uma entrevista. Repito-lhe, tenho de vir aqui por razões pessoais. Mas, está bem... Vamos lá, dir-lho-ei com franqueza: não me desagradará se o encontrar. Além de mais, pode suceder-me algum dissabor como o de hoje... Em suma, agradar-me-ia vê-lo novamente.., para lhe dizer duas palavras. No entanto, veja bem, não vá julgar-me mal, não creia que habitualmente concedo entrevistas com tanta facilidade... Não lho faria se... Mas isto é o meu segredo! Só lhe ponho previamente uma condição...

— Uma condição? Fale, diga, diga já tudo; estou de acordo com tudo, estou pronto para tudo! — exclamei, entusiasmado. — Respondo por mim, serei obediente, respeitoso... bem me conhece...

— Justamente porque o conheço é que o convido para amanhã — respondeu, rindo. — Conheço-o já perfeitamente. Mas aten­ção, só pode vir com uma condição (seja suficientemente bom para fazer o que lhe peço, bem vê que lhe falo francamente): não se apaixone por mim... É impossível, asseguro—lho. Se quiser vir por amizade, será bem-vindo, aqui tem a minha mão... Mas por amor, não, suplico-lhe!

— Juro-lho! — exclamei, segurando a sua minúscula mão...

— Basta, não jure nada: sei que o senhor é inflamável como a pólvora. Não me censure por lhe falar assim. Se soubesse... Também eu não tenho ninguém com quem trocar palavras, a quem pedir um conselho. Como é evidente, não é na rua que se deve procurar conselheiro, mas o senhor é uma excepção. Conheço-o como se fôssemos amigos há vinte anos... Não é verdade que não me trairá?...

— Vai ver... Só não sei como vou passar toda esta noite e todo o dia de amanhã.

— Durma bem. Desejo-lhe, uma boa noite e lembre-se de que confiei em si. O senhor ainda há pouco dizia que é preciso darmos conta de cada um dos nossos sentimentos, até mesmo de uma fraterna amizade! Disse isso de tal modo que subitamente me ocorreu a idéia de lhe confiar...

— O quê, por amor de Deus? Confiar-me o quê?

— Até amanhã! Que isso permaneça por ora como um segre­do. E melhor para si: pelo menos, assim isto parecer-lhe-á um romance. Pode ser que lho diga... Falaremos primeiro e travare­mos um conhecimento mais amplo...

— Eu contar-lhe-ei amanhã toda a minha história! Mas o que se passa? Dir-se-ia que algo de prodigioso me aconteceu... Onde estou eu, meu Deus? Então, diga-me: não se sente contente por não se ter zangado comigo, como teria sucedido com qualquer outra, de não me ter imediatamente repelido? Em dois minutos tomou-me feliz para sempre! Sim, feliz! Quem sabe, talvez tenha conseguido reconciliar-me comigo mesmo, resolvido as minhas dúvidas... Talvez que fique para sempre preso a estes minutos... Enfim, amanhã contar-lhe-ei tudo, saberá tudo...

— Está bem, aceito. O senhor falará primeiro....

— De acordo.

— Até amanhã!

— Até amanhã!

E separamo-nos. Caminhei pelas ruas durante toda a noite: não me decidia a voltar ao meu quarto. Sentia-me tão feliz...

Até amanhã!

Wednesday, June 29, 2011

Amar-te

Não importa quantos amores tera, mas sim a intensidade e pureza do único...


Eu.

Saturday, June 25, 2011

...

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.


Sobre a autora:

Clarice Lispector, (1920 — 1977) escritora, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva buscava exprimir, através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise.

Alma

"Tinha o grito de uma paixão impossível, encravado na retina a alma".



Ele.

Tuesday, June 21, 2011

Trinte e dois.

Depois daquela chuva rápida de gotas finas ela cruzou a rua central da cidade baixa.
Trazia nos braços dois livros, tinham a capa manchada de sangue, ou seriam resquícios de vinho da noite passada? Onde atenuou a solidão em esquinas sem luz. A página trinta e dois marcada com uma folha azulada contia a poesia preferida, era de Rilke, seu poeta de todas as horas. Mesmo de pálpebras cansadas, acesas agora pela luz do sol radiante, inclina seus braços lisos sobre o banco da praça deserta. Cicatrizes na calçada lilás denunciam apegos.
Descansa o corpo franzino. Acometida por olhos de estranheza. Retira do casaco de couro negro um pedaço de seda em branco, despeja sensações rabiscadas com giz de cera. Brilham os lábios finos, são atrozes e insinuantes.
No peito delineasse um nome feito com miçangas.
A noite encosta, continua denunciando sonhos, vigiando o céu.
Sondando as nuvens.

Depois de uma bela taça de vinho tinto, essas palavras avulsas libertaram-se.
Cansaço na retina dos olhos, a madrugada sobrevive.
Vivendo.

Eu.

Tuesday, June 14, 2011

Futuro

Se posto que futuro seja promessa e promessa racha.
Se posto que futuro seja obscuro ou clarão.
À parte, o que nos cabe é viver um dia de cada vez.
Intensamente.
Ao lado seu.
Do seu lado.
Lado alado.



Eu

Sunday, June 05, 2011

Mosteirô

A cobra verde aos pés, mas tu não és a Virgem, nem as cobras são fornicadoras de mulheres. Todas as espécies de Répteis e Anfíbios em Portugal estão protegidas. Chateiam-se e chateiam-me por dizer estas coisas, só os zoólogos dão valor a minhocas, sapos e formigas, mas Proteção é Proteção das Espécies, exceto a humana: Olha o que se passa agora em Israel, na Palestina, no Iraque! Matam-se uns aos outros, já lá vai o tempo em que as guerras se faziam com espadas e códigos de honra, em que havia paladinos do Amor que defendiam e protegiam as donzelas, os órfãos e as viúvas. Hoje atacam-se os civis, as crianças, mata-se covardemente à distância, em salas ovais, dando cliques com o mouse nas linhas azuis dos links.
Ninguém está protegido. Só as espécies animais e vegetais estão protegidas por lei. E de que lhes vale isso? Quem sabe? Quem lê?


Autora: Maria Estela Guedes

Sobre o autor:
Maria Estela Guedes é uma escritora portuguesa e idealizadora do site TriploV, um portal que coloca em contato as artes, as letras, as ciências e o esoterismo, Maria Estela Guedes é responsável por fomentar a publicação literária em Portugal.

Friday, June 03, 2011

Amigos

Os grandes amigos não se fazem apenas de presença física, mas sim de entrega, de entrega em espirito-alma.
Todos são passiveis de erros.
Alguns amigos são como geleiras, com o tempo e acometidos por um sol escaldante, derretem.
Somem.
São apenas amigos de gelo.
Já alguns amigos, mesmo passíveis de erros, perduram, pois, esse mesmo sol os alimenta.
Alimentando-nos juntos.
O mundo sente falta de amigos na verdadeira acepção da palavra.
Escolho meus amigos pela retina.

Eu.

...

Não passe como uma ventania ligeira ou apressada, mas sim como uma brisa leve e suave, que acaricia a pele.
Passe sempre, quem sabe um dia "fique".

A chuva fina e silenciosa veio de repente; fiquei todo molhado, foi proposital.
Adorei.
Ela ainda escorre pelo vão da janela e faz um barulho de "Jazz" batendo na calha.
Ela, a chuva.


Eu.

Tuesday, May 31, 2011

Retina

A retina te tocava em segundos, assim aos poucos.
Continuamente.
As mãos brandas e brancas eram como mármore em reflexo.
Os olhos, esses eram ávidos e profundos, como um lago imune à imensidão...


Eu.

Monday, May 16, 2011

Ela.

Só há um desejo em mim, de "roubo", vêm e furta-me, leva-me contigo, em palavras e sonhos...
Espero-te debaixo daquela árvore em sombra lateral.
Por mais tênue que seja, leva-me?
Agora.
De matéria, já é concretude.


Eu.

Monday, May 09, 2011

A Mercantilização da fé.

A nossa sociedade dita contemporânea moderna, ou melhor, contemporânea pós moderna nos traz espantosos questionamentos, talvez seja pura inocência ou até falta de racionalidade questionar os inúmeros avanços acerca de diversas áreas do conhecimento, como, medicina, informática, robótica, processamento de dados, armamentos, enfim são inúmeros os avanços, porém o campo das relações humanas, como anda? Seria outro “crime” não considerar a nova dinâmica que a área virtual oferece aos seus usuários, é óbvio e notório que as relações se dinamizaram com o advento em massa da Internet como ferramenta, não apenas de divulgação, mas também como meio de propagar e trocar novas informações, não esquecendo que em nosso país ainda muitos não tem acesso a essa ferramenta, por tanto parece haver um paradoxo na medida em que esse meio proporciona avanços para muitos, e gera falta de oportunidades para outros. A fé destaca-se como meio de divulgação em massa, através de mensagens, propagandas e afins, a ponto de muitos receberem uma verdadeira enxurrada de informações as quais não têm o mínimo preparo para seletivilza-las. Convenhamos, esses “cegos” em muitos casos podem até serem considerados analfabetos funcionais, diante de tal fato, não querem ter, ou infelizmente não têm, o mínimo discernimento sobre isso, aliás, sobre muita coisa, então não sejamos tão exigentes, pois no que diz respeito à fé, a questão perpassa apenas o conhecimento da Teologia, é mesmo pura falta de educação formal, estrutura familiar, formação própria e autônoma de idéias, além de um estado capenga... E por ai vai. Façamos nossa parte, mas com muito cuidado, pois o ser alienado tem todo direito de continuar sendo, ou não? Afinal não estamos vivendo em uma sociedade democrática? Que democracia é essa? Salve a contrariedade!
Que sociedade pós moderna é essa onde se vê a cada dia à degradação de valores morais, éticos e acima de tudo humanos.
Percebe-se a venda da fé em troca de um paraíso que se quer existe dentro de cada um, um estagio espiritual que muitos pregam e nunca alcançaram, e também não querem alcançar, a demagogia latente toma corpo.
A questão é muito mais “eu, nós, interior” e poucos vêem, que pós modernidade arcaica é essa...


Eu.

Friday, May 06, 2011

...

É algo entre um sonho azul/senil e o infinito desbotado...


Eu.

Thursday, April 28, 2011

...

Todo o bom e singular discurso carrega em si uma boa dose de demagogia.
Toda a apropriação do conhecimento deve ser modesta, porém contínua.

Eu.

Saturday, April 16, 2011

Folhas.

Não passe como uma ventania ligeira ou apressada, mas sim como uma brisa leve e suave, que acaricia a pele.
Passe sempre, quem sabe um dia, ao passar, fique.

Questiona-me o que mais imponente tenho em mim?
Por vezes o mais forte e áspero que tenho em mim é a "demência", o devaneio, como um típico poeta de esquina, ando ao lado de um Ipê amarelo, debaixo da sombra de um Cedro de vidro, por dentre as árvores frondosas da Primavera que aponta...

Ficaram folhas secas com recados na agenda lilás.
Acordei.
Era sonho.

Utopia minha.

Eu.

...

"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo.
Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza.
Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil."


Albert Camus.

Tuesday, April 12, 2011

...

Os anjos que sentam sozinhos sobre a pedra de mármore gelado.
Da noite se fez dia, do dia se fez noite.
Agora recolhem as asas após vôo assombrado.
Só os lábios denunciam...
Desses olhares de cera que atravessam as paredes erguidas com braços de ferro.
Só a solidão ausenta-se.

Eu.

Thursday, March 24, 2011

Novoantigo

Não há mais nada de "novo" no novo, pois, tudo não passa de uma recriação "nova" do velho.


Eu.

Monday, March 14, 2011

Ébrio

Adoro ver a Posição das Estrelas no céu, da lua também.
Mesmo quando tudo esta cinza, abrem-se brechas no céu...
Sentar-se nessa cadeira velha, sem importar-se com o ranger que ela traz.
Debruço-me a escrever essas palavras brancas e brandas, por vezes ácidas, é o que goste de fazer. Sem temer as vicissitudes do dia a dia.
Meus olhos? Esses às vezes mostram gana, mas é passageira.
Apaixonado por pálpebras.
Percebam quando elas se fecham...
Ainda não sei porque, mas adoro quando chove... Sentir essas gotas espessas que gelam minhas costas.
Em qualquer ocasião prefiro abdicar dos guarda-chuvas. Sempre é assim. Tenho corpo franzino e dedos finos.
Ainda adoro dar rosas, brancas ou vermelhas.
Alguns hábitos ditos Vitorianos ainda chamam minha atenção.
Prefiro cinema com Vinho tinto, dispenso a pipoca.
Aprecio telas de arte, mesmo sem saber o que algumas representam. Não importa. A essência esta na estética o resto é simbolismo.
Prefiro as cores tênues, essas que não ressaltam nos olhos. Ainda pinto a calçada com giz de pedra e ando na grama de pés descalços.
Era assim nos tempos joviais.
Continua sendo.
Gosto de canções que não tocam nas rádios.
Coleciono discos de vinil, até tenho alguns na parede branca.
Não suporto o pó que se encosta. Prefiro preto e branco. Não tenho apreço por multicores.
Ah! Ainda pretendo subir no prédio mais alto... Erguer bem os braços e ficar lá algumas horas, de preferência sozinho.
Quem sabe com a companhia ideal.
Adorava ficar próximo aos trilhos do trem, ele passava de hora em hora.
Contava os vagões. Passavam tão rápido. Tinha toda certeza que voaria sem asas. Ainda tenho.
Ficar estático durante três minutos por dia é essencial, mesmo nos dias mais improváveis.
Sempre carrego cravos no bolso da calça.
Que seja uma confissão.
Quando escrevo a mão livre, prefiro o lápis.
A modéstia tem sido um defeito.
Às vezes dois olhos é pouco.
Nunca deixo de ouvir a canção que mais gosto por três ou até quatro vezes.


Eu.

...

A aplicabilidade em relação às ditas práticas Humanas e suas relações, seja de conduta ética, moral ou afetiva se mostram inaplicáveis, a partir da complexidade que nos cerca. Criemos então "mundos paralelos" e utópicos de conduta, sejamos felizes e amorosos em um mundo contemporâneo de sonhos e devaneios.
O amor salva!
Sempre.


Eu.

Thursday, March 10, 2011

Aspirar

Novas aspirações são necessárias, eu diria inerentes a nós, seres humanos incompletos, muitos não em essência, mas em sua ínfima capacidade de contentamento.
A procura incessante de algo que não se têm, ou que simplesmente inexiste.
A busca deve continuar, utópica e arcaica, que seja.
Vislumbrar.

Eu.

Thursday, February 24, 2011

Sonhar (te)

Todos os sonhos são passíveis de realização, porém, alguns ditos e/ou tidos como inatingíveis, concretizam-se além da retina dos olhos, não são/serão jamais visíveis.

Eu.

Thursday, February 17, 2011

Anônimo

Falo muito mais de mim quando escrevo, motivo?
Não sei...
Talvez a pretensão de anonimato perene.
Olhares, esses sim sempre serão denunciadores de meu avesso.

Eu.

Friday, February 11, 2011

O som do silêncio é incolor...

Eram perceptíveis apenas as folhas, as sentia com os dedos dos pés.
De mãos ao vento, como quem corta o céu em linhas e faz desenhos em nuvens, seguia. Andar por sobre a grama verde em dias cinza.
Seu andar era lento, pernas curtas, não tinha muito alcance com os braços finos. Esmagava folhas secas com a palma das mãos, matinha um gosto amargo nos lábios.
Com baixo tom de voz.
Olhar distante. Cabelos eriçados e pele alva.
Olhava-se no espelho ao menos três vezes ao dia, e o que via?
Alguém incomum, diferente. Por vezes atônito, a um passo da despedida insólita.
Anel cor de sangue na mão direita.
Andava diariamente pela aquela viela de pedras soltas, ar pesado.
Lenço lilás no pescoço. Unhas negras e dedos curtos.
Preencher espaços ainda não habitados perecia ser a intenção.
Sorrateiramente inclinando-se entre dia e noite.
Tardes outonais eram descritas em folha branca. Letras escondidas debaixo da cama prateada., na janela apenas um vaso amarelado e sem flores.
Regar o que ali? Observava quando o sol se punha, todo o dia era assim, com ou sem chuva. Não dava ouvidos aos desavisados, aqueles que não percebiam a cor do céu nem as aves que revoavam continuamente aquele povoado deserto e sem luz.
Tudo perecia conter algo de inédito.
Ainda não contemplado por aqueles olhos cor de brasa.
Definitivamente é de impressionar a sagacidade que traz nesses olhos, algo íntimo sempre acontecia, mudava repentinamente.
Sem hora marcada ou movimentos estudados.
Uma vontade tênue e lilás de surpreender-se.
A cada segundo o silêncio é cultuado divinamente. Sem deixar transparecer um semblante preocupado ou tenso. Calmaria. É o que tomava conta, parecia viver entre um misto de devoção e alienação desmedida.
Por escolha talvez. Quem sabe? Esse hábito de brincar com palavras foram-lhe tomando aos poucos. Assim gradativamente.
A modéstia agora dava lugar ao único e improvável momento de espera.
O futuro caracterizava-se como a maior das promessas mal contadas.
Apesar de certo apreço por multicores, às vezes tudo à volta lhe parecia monocromático. Essa vontade latente que pairava em tecer nos dias algo supremo.
Ver um mundo caótico ao avesso. – O silêncio lhe dizendo:
- No final daquele poço há mais um estúpido querendo lhe jogar a corda.
Deixaria que o afogamento fosse divino e único?
O medo agora era medo de não tentar.
Após debruçar-se sobre aquela calçada fria, pensou.
Pensou muito sobre como descreveria aquele novo momento de silêncio.

Eu.

Friday, February 04, 2011

...

A curiosidade Humana desmedida é espantosa, a ponto de ser comparada com tamanha falta de humildade que assola a “todos” assim como um suicídio coletivo de almas com ego galopante .
Diante disso, confesso meu “grau” de hipocrisia.

Eu.

Tuesday, January 04, 2011

Buscar

Sim, eu sei, aliás, suponho que "todos" saibam disso, embora muitos cometam um grande erro, fugir desse "vazio".
Dentro desses nossos dias de "vazio" há tanto para se ganhar, perder, esquecer...
A busca por novos e repetidos momentos, estágios, sensações de dias ou de horas, quem sabe até de segundos, sim, pois imagino que em certos dias, tal "segundo de vazio" tenha sido melhor que o dia todo.
A busca é incessante, não há linearidade nesse plano de momentos, sentimentos, sentidos, tudo enfim é passagem...
Os dias nunca serão os mesmos, esse é o encanto, façamos dessa busca por dias, horas, minutos, segundos, um objetivo a ser seguido, com afinco, porém devemos estar plenamente conscientes que não andar sozinho nessa busca é um grande impulso.
Não é sempre que conseguimos mudar algo que é parte, ou por vezes, faz parte de nós.


Eu.