Saturday, December 07, 2013

Entre (linhas)

É preciso que eu esteja em estado de vulcão, não de erupção porque erupção é passageira e estado de vulcão é constante. Absorver e dissolver na hora exata,sempre será possível nos refazermos, nos reinventarmos, enquanto houver um novo respirar... A vida nunca deverá ser fixação, mas sim flutuação. Sejamos superficiais em doses homeopáticas, nunca em doses cavalares, assim deita seu dorso sobre a relva gelada e deixe que a chuva molhe a alma. Ele. "Gostava ele das coisas rasas, do vazio, do incerto, da eminencia de ser".

Sunday, November 10, 2013

Sobre: pausa e aquário

Mais uma pausa. Volto depois de conseguir equilibrar-me melhor, provavelmente isso não acontecera assim de imediato... Voltei, sem ainda conseguir aquele equilíbrio desejado, suponho que seja algo inatingível, isso conforta. Já estamos em uma nova estação, é primavera, é bom escrever perpassando as estações, as sensações, tato e apego multiplicam-se. Agora tenho mais peixes que descem e sobem pelo aquário, de várias cores e formas, adoro observar os movimentos que fazem de cima para baixo, não à simetria alguma, não deve ter, é puro balé em correntezas frágeis e artificiais. São casais díspares que flutuam em um espaço que para muitos pode soar tão limitado, mas não é, fazem dele um mundo a parte, de tamanho e proporções jamais imagináveis. Não há como mensurar a riqueza da dança, companhia e flutuação. Um dia desses lhe falo sobre minha flutuação. Já pensou em suas flutuações? Sua Inconstância? Tenho certeza que sim, deve ser como essa ausência de simetria a qual citei acima, não haverá conformidade eterna, ou constância que um dia não necessite ser repensada. Não há. Ele.

Saturday, November 09, 2013

Ler você

Ficar ao sol como criança que precisa aquecer a pele, por que não aquecer os livros? Assim aquecemos a pele e os livros. Ler ao sol é definitivamente uma bela experiência, encisto em ressaltar que prefiro o sol tênue, fraco, assim temos mais tempo, possivelmente, até o final da tarde; termina-se ao menos um capítulo daquele livro extenso e cumprido em nossos pensamentos. Ele.

Saturday, October 19, 2013

Chá

Me pega pelas mãos, já alheias, depois um chá gelado quando o sol encosta-se e a noite já circundante... Ele.

Saturday, September 14, 2013

Ser (s)

Era só mais uma tarde dessas onde se espera a possibilidade de esgueirar-se por entre a infelicidade de um cotidiano massivo e dilacerante ou a imprecisa espera por uma ociosidade contemplativa do nada. Para Gertrudes e Agatha, garotas de pálpebras acinzentadas, dedos finos e cabelos nos ombros, esse nada tinha de sentido obtuso e disforme, visto por olhos alheios, afinal como contemplar o nada? Para ambas só era possível contemplar o nada a partir de uma total inversão, pois o nada é ao mesmo tempo tudo. Gertrudes não existiria sem Agatha, assim como, Agatha só se via em si mesma como reflexo de Gertrudes. Frustradamente tentavam analisar o espaço que as separava, sendo esse espaço inexistente, pois se percebiam uma como a extensão da outra. Aquelas folhas secas de inverno colhidas por Agatha só representavam beleza se sua contemplação fosse percebida por Gertrudes, a partir dos dias daquela nova estação não existiria mais o nada, sendo Agatha e Gertrudes extensões de si mesmas, tudo lhes era tão caro, o vazio, o contemplativo, o belo, o obscuro. Fundiam-se. Eles.

Monday, August 05, 2013

Borboleta azulada

Por que essa inclinação em ficar te enchendo de confissões minhas? Acredito em suas palavras. Confio em você. Gosta da garota de pele alva. Olhar sinuoso. Cabelos vermelhos. Unhas negras. Anda com poesia nos olhos. Senta-se no banco da praça mais deserta, debaixo de uma árvore ressequida, sob a sombra mais intensa... Depois de uma chuva forte, bateu o sino da igreja, estava vazia, às 18:00 horas. Caminha através de pessoas que não vê. Detêm-se a pequenos detalhes de sombra e luz. Passa por ela mais uma vez uma borboleta azulada que vive já há cinco dias... Bate as asas azuladas. Brilham. O tom do céu muda com as horas. Carrega na bolsa de coro desbotado o livro predileto. Na página trinta e sete tem a poesia que mais gosta. Rilke. Se solta. De impulso derradeiro capta olhares das nuvens. Agora límpidas. Aprecia figuras de anjos medievais. Direciona-se e debruça sobre o banco de madeira o corpo franzino. Braços abertos. Olhos de ferrugem... Aquele olhar de cera que atravessa o sol. Só a solidão ausenta-se... Ele.

Tuesday, July 16, 2013

Chão da sala

Porta aberta, o sol entra pela fresta deixada de proposito. O sol é ameno, se intercalam sombra e sol, nesse cômodo da casa, tudo deixa marcas. Formam-se desenhos no chão da sala, em parte da cozinha. Sobretudo na sala. Interessante como em tudo se podem notar movimentos, cores e formas, difusas ou não, as formas sempre estarão preenchendo os espaços. Mesmo atento, muito se perde através da retina dos olhos, os ângulos observados, esses, muitos deixamos de perceber. Não podemos dar conta da percepção total, porque então haveríamos de dar conta da finitude da vida? Deixa o que for, até o nosso alcance, os demais, esse ficará no vão do tempo, espaço inacessível. Dar-se-á então, um nome ao tal inacessível espaço de tempo, denominado com a ausência ‘dele’. Olhar para o nada, por vezes é olhar para o todo, silenciar, pode ser a audição de todos os sons ao redor. Essencial é silenciar. A percepção acusada de olhos estáticos nos faz ver além, sem mesmo estar vendo concretamente. Fecharam a porta, com toda certeza alguém alheio a tudo o que se passa nesse mínimo espaço. Tudo se torna tão imenso com a diminuição da luz natural. Modificação do ambiente. Novas formas se refazem, o poder de refazer-se é realmente incrível, não apenas desse ângulo, nem mesmo das múltiplas visões que pode fazer valer dele, mas também da vida. Por que ele insiste em debater a vida? A simplicidade dos dias é a máxima. Essa possibilidade de renovação, nem todos alcança, por quê? Ainda acredito que qualquer renovação deve partir de dentro para fora, o resto é oco. O encantamento de almas que se renovam, absorvem o que é bom e dissolvem o desnecessário. Eis um grande triunfo para quem sabe: absorver e dissolver. O que acha da possibilidade de facilitação de tal processo? Poderíamos ver o que realmente não queríamos ver, a impossibilidade do visível aos olhos, seria aquele autoconhecimento de dentro para fora, esse ato deveria organizar essa relação. Nunca é possível, porém, não esqueçamos, a ausência pode parecer tão fria e dolorida, mas o que realmente importa, é a presença em alma, portanto, não ligue para ausência física, em coração e alma, tudo se tornará pleno em si, mesmo com todos os possíveis escombros, Em alma e coração estaremos sempre presente. Sempre. É preciso que estejamos dispostos a deixar-se estar, perder-se em meio aos pensamentos que flutuam por entre nós e o limite que nos separa, é preciso também saber a hora de voltar, ou não voltar. O meu avesso mostra-se mais límpido e visível em mim do que um poste em mar aberto. Sempre tive oito anos em um canto da minha memoria, e ainda hei de ter não mais que 16 à vida toda. Á partir disso continuará descortinando travessuras de uma vida flutuante, entre aqui e ali, entre o acaso e o limiar. A vida nunca será fixação. Ele.

Thursday, June 20, 2013

Ipê Amarelo

Andava continuamente sobre aquela rua, todos os dias, às vezes em tardes vazias, pisando sobre as folhas em migalhas, todas no chão, já esmaecidas pelo tempo. Algo lhe impulsionava, tinha de ir além, mesmo que sem destino, afinal, destinos são promessas? Ao cruzar com a garota com flores nas mãos, sentia no peito algo há tempos adormecido, acometido por pensamentos e canções, daquelas que partem o peito, via as flores e tinha visões, redenção, desejo, paixão... A rua guardava em si toda magia, agora em deslumbre na estação de outono, não necessitavam palavras, seria um infortúnio diante de tanto encanto. Pela manhã o tom era rubro, o sol ainda vagava dentre as nuvens, escondido, como ele, em frente à aparência lívida, inebriante, dessa que pousa e tece seus sonhos em madrugadas de insônia, sim a garota das flores... Rosas cor de sangue, quem seria a pessoa a presentear todos os dias? Carregava em si uma face inquieta, dessas que se mostram em corações partidos, mãos tremulas, suspirante... Mesmo em dias de tempestade, seguia o caminho com fé, além de seu pisar cotidiano, tudo era insípido, fugaz, nada se compara à visão plácida e tentadora dessa que o deixava atônito. Desviam-se olhares, sutis, sentia no âmago o doce momento da reciprocidade, eram segundos, como uma vida em contemplação, queria desse momento à eternidade adormecida, sem prantos, sem medos, amor em vida... Procurando palavras nunca ditas, transbordava em si algo ardente, sentia-se tomado pela embriagueis da ternura, tocar-te, não mais apenas em sonhos... Brandas manhãs, a fragrância sutil sobre dias lilases, a visão diária do Ipê Amarelo o impulsionava ao ventre dos sentimentos, tomado pela garota das rosas vermelhas, em dias de chuva intensa, vestia-se com a cor negra, denunciava a lembrança sentida... Ah! Quem dera, que fosse por ti, das lagrimas que escorrem em dias úmidos, desejo, entrega, por onde caminhar? No transpor dos dias, já tomado pela embriagueis matinal dessa visão cintilante, contrastes, face alva, as rosas vermelhas, seguia o mesmo caminho tracejado, levava consigo todo seu amor. Persistência. Como se fosse um selo carimbado, não havia fuga para tais dias... Bastava segui-la, como se fosse combinado, no embalo dos sonhos... Na lápide da paixão alucinante, a imagem da garota das rosas cor de sangue, queira DEUS que conceda a ti o brilho daqueles olhos azuis, sedentos. Mais uma vez coberta de rosas vermelhas, debaixo do Ipê amarelo, dentre a sombra daquela manhã abençoada, certa, e tão esperada... Ele.

Sunday, June 09, 2013

Lábios

Palavras de neve noturna, esvaindo-se inconscientemente pela fresta dos meus lábios. Hoje mais que ontem. E se fosse dia? Ele.

Tuesday, May 21, 2013

Filtra-me

Vem, deita seu dorso sobre o meu... Curvando-te a mim os lábios rosados, assim como vergam as árvores amedrontadas pela ventania medonha. Despeja-me olhares, como quem cava jóia rara... Arrobam-me o peito... Filtra (me)? Transita em mim, como pássaros que dormem em nuvens azuis, depois, saem em desatinada revoada... Ele.

Thursday, May 16, 2013

Escafandro

Olhos, mãos e lábios traduziam melhor suas reticências... Ele.

Tempo

Não vou lhe falar sobre como esse tempo tem passado tão rápido aos nossos olhos, pois esse é o tempo que inventamos que imaginamos ser, que nos foi "imposto", e, portanto o aceitamos, por imposição ou não,esse é o tal tempo do relógio, falemos então de outro tempo, o tempo que deve ser exigido por nós, o tempo das sensações... As palavras serão de sensações, anseios, frustrações, conquistas, devaneios, perdas e ganhos, serão palavras que saltam, eclodem, sem restrições, apenas serão/foram... Ele.

Wednesday, May 01, 2013

Noite Branca

Quisera eu ter aquele tamanho, os braços eram longos e reforçados, não tinha apreensão nos olhos, esses eram vultosos e sagazes. Guilherme não tinha mais cabelos longos como antes, mesmo trabalhando de sol a sol. Suas mãos ainda pareciam macias e firmes. Esticava o corpo todas as manhãs na varanda da casa. Não era desses garotos que cultuam o corpo, nem precisava... Morava com os tios, tinha cumplicidade com a tia de nome Vilma, dava-lhe todo carinho que nunca teve dos Pais. Fato esse que tentava deixar passar despercebido, mas seus olhares tristes eram denunciadores. Tentava desesperadamente esconder-se atrás de certa arrogância e impessoalidade. Parecia ter poucos amigos. Muito poucos. Talvez não por opção, quem sabe? O lugar sagrado eram as quatro paredes brancas daquele quarto frio. Cheio de adereços em cristais e gesso, cuidadosamente lustrados. Era cuidadoso. Excêntrico às vezes. O fato de nunca abrir as janelas deixava um mau cheiro, nem as cortinas pareciam ser estendidas, algumas frestas de luz adentravam por espaços da entrada que dava para um sótão, escuro e gelado. Poucas vezes subia ali... Mantinha coleções de álbuns de vinil, alguns nunca ouvidos, os preferidos estavam na parede, olhava como se olha aquém se quer... Ao lado a coleção de borboletas azuis, a qual trazia desde a infância, recordação do Pai falecido. Tentava recompor as asas destruídas pelo tempo, assim como fazia com sua mãe, durante longas noites. O retrato em cima da cama trazia uma mulher austera, com grande vivência. Sumiu em um dia de chuva sem deixar vestígios. Não levou nada, apenas a roupa do corpo. Estranheza total. Guilherme matinha um saudosismo ácido. Como quem só olha de dentro para fora, assim via tudo se delinear em sua frente, pequenos formatos tomavam proporções enormes. Quem me dera desvendar o que aquele garoto trazia no peito, o que fazia seus olhos brilharem por tão pouco, pareciam tênues seus momentos de felicidade. Deveriam ser... É isso! Guilherme só olhava de dentro para fora, tudo partia de uma sensibilidade frágil e extrema. Não era percebida assim, por olhos nus. Poucos a percebiam. Mesmo assim aqueles olhos sempre pareciam cerrados, olhares tímidos e sorrisos amenos. Timidez? Talvez... Tinha as mãos geladas. Sempre mudando de lugar os móveis do quarto. Nada ficava no mesmo lugar. Só pessoas especiais podiam ocupar aquele espaço. Transformara aquele ambiente em algo intransponível. Único, e passível de seus devaneios. Alguns segredos deveriam estar contidos ali? Brigava com Bruno o primo mais novo, por sempre estar espiando pela fresta da porta, às vezes em um descuido deixava entreaberta. Trabalhava com Tio em uma oficina mecânica, dava duro sem reclamar. Aos vinte e dois anos tinha acabado o colegial, mas ainda não tinha dado um rumo na vida, muitas indecisões assolavam seus pensamentos, esse era um dos grandes motivos para ser diariamente atormentado pelo Tio. Homem de poucos sorrisos. Matuto e exigente sempre dava tarefas difíceis para Guilherme, algumas embora normais, para Guilherme pareciam definitivamente impossíveis de serem cumpridas. Mas sempre fazia o possível para servi-lo. Mesmo contrariado dava tudo de si, era assim em tudo o que se propunha a fazer. Ir até o mercado era uma dessas tarefas mais difíceis, não gostava de cruzar as avenidas, preferia as vielas e ruas estreitas, certo que ali haveria pouco movimento. Alguns olhavam com certo espanto, porque aquele garoto chamava-lhes atenção? Talvez transpassasse certa inquietude que era disseminada por onde era visto, por onde passava. Afinal em cidades pequenas todos deveriam se conhecer e assim se dar bem. Mas isso não acontecia. Talvez aquele jeito fosse seu e de mais ninguém. Apenas seu jeito de ser. Andava descalço na grama gelada. Adora ficar debaixo do cipreste amarelo, encostar os braços, estender as pernas e roer as unhas. Usava camisetas com pétalas bordadas. Os finais de semanas eram dedicados a falar de amenidades pra si mesmo. Coisas simples para muitos, para Guilherme tinham dimensões extremas. Noites que pareciam cinza, através de seus olhos eram brancas. Era particular e privado seu mundo. Pequeno grande mundo. Ele.

Saturday, April 27, 2013

Erupção

Para lhe escrever é preciso que eu esteja em estado de Vulcão, não de Erupção porque Erupção é passageira e estado de Vulcão é constante... Ele.

Tuesday, April 09, 2013

Tape

Que venha aquela chuva e nos molhe de sensações, nos brinde com delírios e devaneios, afinal tudo isso, aqui, nesse plano, é apenas abstração... Dou-te um colar de fitas e nem peço que use miçangas, apenas deite-se em meu dorso e contemplaremos a lua altiva... Ele.

Saturday, March 30, 2013

Imensidão

Não há imensidão maior que o Mar, se posto a comparações, toda imensidão, jamais seria tão imensa como o Mar. Imensidão em si, nunca tão imensa como o Mar... Ele.

Sunday, March 24, 2013

Diálogo de um segundo

Esses gostos e gestos que estão aquém da "massa" cotidiana, me chamam à atenção, essa estranheza toda. "O belo esta no subterrâneo" “Mas realmente o massificado pouco me atrai.” - Idem. Temos algo em comum, isso é bom! Por que a maioria prefere aquilo que tem sabor artificial e vêm em caixas bonitas? - Talvez porque as caixas bonitas são bonitas por fora, mas ocas por dentro, porque o artificial tem sabor artificial, ele é sem sabor. Ele.

Wednesday, March 06, 2013

“Âncora de leveza”. homem em um maremoto

Ao observar homens aparentemente distintos em um dia do mês de maio, em um ano e hora irrelevantes – ao menos para serem citadas aqui - de todos aqueles homens que estavam sentados do lado esquerdo da calçada, sobre aquele banco de madeira acinzentado, com olhares de canto, rostos caricatos e mãos para o alto, o mais velho deles, o qual aparentava entre cinquenta e quatro e sessenta anos, me parecia tão hermético, nada sisudo como os demais. Usava um traje em tons monocromáticos, se contrapunham com a cor cintilante de um arco íris impreciso no céu. Não tinha as mãos marcadas pelo tempo, observava tudo com o canto dos olhos (castanhos) não marcava em si o sinal da verdadeira idade, qual seria tal sinal? A velhice teria realmente algum sinal relevante? Suponho que se houvesse, fosse apenas à alma. O que poderia importar a sua real idade? O que se observava ali eram os detalhes, a simplicidade de movimentos e percepções, talvez aquele amadurecimento tão desejado por alguns jovens, muito poucos creio eu, aliás, contrapondo-se a esse homem, cabe uma bela analogia aqui, me parece que muitos desses jovens atuais, ou ditos pós-modernos, estão alienadamente “contentes” com algumas atuais infâmias contemporâneas, em relação à conduta, ética e moral, afinal para que servem todos esses pressupostos, ou seriam conceitos arcaicos? Não importa, talvez atualmente não sirvam para nada, sim, pois todas estão fora de “moda”, não é? O desrespeito, a falta de moral, ética e humildade são tão demode, em suma, a superficialidade alimenta muitos desses jovens, triste constatação; afinal esses valores eram requisitos inerentes a tal sujeito citado nessas linhas, por isso resolvi traçar esse paralelo de comparação, guardada a real parcela de hipocrisia, a qual a todos acomete; esse homem que me parecia de essência intocável como reconhece-lo? Talvez apenas observando profundamente a retina dos seus olhos, duvidosa para muitos, pois, assim como muitos outros hábitos, soava tão estranho contemplar nuvens em um dia de céu azul, quem era tal sujeito? Surpreenderia a qualquer outro interlocutor. Esse tal senhor de mãos leves e macias, confirmei quando pude toca-las, de passos geométricos e precisos, tinha o corpo franzino, cabelos brancos como cor de neve, essa correlação veio, assim, nesse mesmo dia, o frio era intenso, optou por um cachecol vermelho sangue, sapatos pretos e casaco escuro, um broche branco, impossível precisar de tal distância, alias, á princípio a ideia era de manter certo distanciamento para captar tais singularidades desse homem, distinto homem. É muito bom que fiquem bem claras as singularidades observadas ali, as discrepâncias, não sociais, culturais ou apenas de conduta, mas as perceptíveis aos olhos, essas vinham de tão longe, muito longe. Passei a vigia-lo por vários dias. Imaginava eu se ele fosse pronto em si mesmo, seria a perfeição em pessoa, singularidade pura ali, em seus atos, coletivamente ou não, a partir dessa singular ideia de perfeição, o que ele então deveria perseguir? Como deveria ser para ele danosa a busca de um nada, já que seres dito perfeitos pressupõem seres completos, prontos e acabados, como diria o grande poeta: “Gostava ele das coisas rasas, do vazio, do incerto, da eminencia de ser...”. O quão desumano seria a busca ilusória e utópica por um nível de crescimento intelectual, moral ou estético, o qual a priori encerrar-se-ia em si mesmo. Não haveria desumanização maior. Ele saia pela tangente, pelos espaços menos disputados, oblíquos e adjacências. Assim me parecia que ele gostava de vê-la, vazia, incompleta, ofuscada, cinzenta, em sua incompletude maior, só assim poderia deslumbrar e vê-la prestes a uma erupção, em um sonho de completude. Diferentemente dos demais, os quais se mostravam completos e perfeitos em si, sem restrições ou frustrações enganosas, não me parecia que desperdiçavam tempo contemplando o céu, o vazio da rua ou a maneira inocente de um olhar, não, isso não era para os demais, só observa-se esses traços naquele homem, dos presentes naquele espaço, com toda certeza era o que soava indiferente a superficialidade, sorrisos bobos e canções irrelevantes. Após muitos dias de observação, tomei tal coragem para aborda-lo, quem sabe uma troca de palavras rápidas, isso seria de grande valor, já que esse homem não trocava palavras com os demais, apenas meras cordialidades, diplomacias de conduta necessárias aos misantrópicos. Aos poucos fui entrando em seu espaço, aquele banco cinza, um cipreste amarelo fazia a sombra necessária, em poucos minutos de contato o que ficou ainda mais perceptível, era observar que ele estava continuamente impulsionado a ler e reler artigos, livros e anotações sobre como as pessoas ditas maduras devem agir, como se houvesse um manual para isso, supõem-se que agem como acham que devem agir, porém a imposição hipócrita de uma sociedade calcada em valores os quais representam apenas uma conduta teórica de ser humano, não aplicável, e se aplicável, não cabível para todos os momentos, isso poderia eximi-lo de qualquer culpa retrograda e decadente: moralidade impiedosa que consome os demasiados, me disse ele tudo isso com sangue nos olhos, a principio pensei em um homem em busca de si mesmo, perdido, ou talvez tudo não passe-se de uma fantasia, algo inatingível, não habitável em si, ou em outro qualquer, muito menos apresentada em livros ou manuais estipulados por uma sociedade aquém de si mesma. Talvez ainda acreditando que o esforço e a pratica poderiam leva-lo a concretização de tantos sonhos, quimeras, muitos já descritos para pessoas próximas, inclusive pare esse que declara abertamente palavras sobre ele. Com o passar dos dias, passamos a trocar palavras escritas em folha branca, eu lembro muito bem quando em finais de tarde chegavam em meu endereço palavras daquele homem, confissões em forma de textos, não havia como fugir de si mesmo, era tudo tão explicitado ali, aquela peculiaridade em tecer certas vontades e frustações lhe eram imensamente particulares, assim como eram suas feridas e sonhos ainda expostos por não conseguir vivenciá-los em sua plenitude, seria mesmo necessária essa busca inerente por um estado contemplativo de praticidade tão dolorosa? Suponho que não, ele vivenciava tudo aquilo dentro de si mesmo, não haveria necessidade de externar algo tão belo e singular. Não. Fora de si mesmo aquilo tudo perderia toda a razão de ser. Era o que eu continuamente tentava em vão explica-lo, ele talvez por motivo desconhecido de si mesmo, por vezes fazia da alta cobrança algo insano, dolorido, difícil de amenizar. Mesmo assim sentia que com o tempo aquilo tudo teria um fim, seus olhos me eram tão conhecidos, muito antes de observa-lo naquele banco e mesmo depois de passar a trocar palavras endereçadas, ele continuamente, em sua quietude quase plácida, aquém de incômodos exteriores, passava uma paz libertária, como pessoas as quais nos fazem bem apenas estando próximas. Caberia a mim e a ele: Silêncio oportuno, tão eloquente quanto um discurso sem "substância". Avesso a futilidades mil... Por que o encantamento por algo que não têm o mínimo encanto? A resposta para tal indagação escondia-se por detrás da pele alva e dos olhos negros, os mais belos encantos são os mínimos aos olhos, os mais tênues e frágeis pode ser os mais intensos. Desde então, passamos a contemplar nosso silenciar, como quem contempla uma garoa fina e calma. Além é claro de continuar nos endereçando continuamente, por momentos de maneira mais intensa, já em outros, de maneira abruptamente pálida e conservadora, assim mostrava-nos a nós mesmos, outro lado, aquele lado há tempos “escondido”, entre portas ou janelas, persianas de cetim ou cortinas lilases em tons de rosa e carmim. Confessou-me, ele, que na ultima carta enviada a uma pessoa amada, deixou a marca de seus lábios, obteve resposta com a marca da palma das mãos que tanto contemplava. Aquelas confissões começaram a delinear-se em um fim previsível, pois sua saúde carecia de qualidade. Fiquei sabendo em uma das suas últimas cartas, que estava hospedado em uma bela casa ao pé de uma montanha onde ventava muito, tinha vista para o mar asiático, passará a ler muito sobre Buda e teologias variadas, o local era continuamente abatido por intensas tempestades de vento e atos de um mar violento, questionei em uma das últimas cartas recebidas o porquê da escolha de tal local, embora tão singular em sua beleza, ao mesmo tempo tão perigoso, em estado eminente de sofrer intemperes? A resposta foi: desde que nos conhecemos, fiel amigo o qual aprendi a respeitar e confiar, tornou-se uma de minhas ilusões escrever-lhe como um homem que haverá de enfrentar um grande maremoto, foi até então as palavras que ficaram. Espero que aquele homem ainda possa escrever-me não apenas em palavras, mas com a alma, em sua completude, em seu estágio mais concreto. Sobre sua decisão, jamais o questionei, ainda espero a derradeira descrição, desse homem e seu real maremoto. Ele.

Saturday, February 02, 2013

Alheio

Pega-me pelas mãos, já alheias, depois um chá gelado quando o sol encosta-se e a noite já circundante. Ele.

Thursday, January 17, 2013

Vielas.

Todo dia quando descia aquela rua estreita, sem rumo nos olhos, desfeitos os cabelos ralos por um vento matinal que vinha como carícia e torpor, a indagação sempre era a mesma, porque têm essa mania em decorar as cores do céu? Os tons de azul nunca eram os mesmos. Ainda assim, em certos dias, preferia o cinza. Opaco. Cor nefasta. Tinha apreço por tons e cores. Dizia: Tudo é relevo sobre o fundo branco dos olhos. Como aqueles degraus e seus espaços mínimos, desaceleram olhares. Andava subitamente com mãos disformes, ao vento. Avistava como lampejos de rotina, pássaros que voavam com asas quebradas, retorcidas. Ao avistar figuras assimétricas, usava palavras desbotadas na ponta da língua, sempre em trajeto angular, registrava carimbos em escadas rachadas. É o que relembrava todos os dias durante aquela descida matinal. Olhos fulminantes vigiavam-no por detrás das janelas sem vidro. Permanecia inquieto, ainda sem palavras. Silêncio, tão proposital. Havia ali notoriamente ainda algo de si naquelas pálpebras azuladas. Escondidas em esquinas, vielas ou em ruas flutuantes... *Ele.

Tuesday, January 08, 2013

...

Quando as noites se estendem como plumas celestiais em chão de cristal; os olhos atravessam o céu. Debruça e desenha seus lábios, as pálpebras em tom carmim... *Ele.

Saturday, January 05, 2013

Para ele...

A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas. *Manoel de Barros