Saturday, September 14, 2013

Ser (s)

Era só mais uma tarde dessas onde se espera a possibilidade de esgueirar-se por entre a infelicidade de um cotidiano massivo e dilacerante ou a imprecisa espera por uma ociosidade contemplativa do nada. Para Gertrudes e Agatha, garotas de pálpebras acinzentadas, dedos finos e cabelos nos ombros, esse nada tinha de sentido obtuso e disforme, visto por olhos alheios, afinal como contemplar o nada? Para ambas só era possível contemplar o nada a partir de uma total inversão, pois o nada é ao mesmo tempo tudo. Gertrudes não existiria sem Agatha, assim como, Agatha só se via em si mesma como reflexo de Gertrudes. Frustradamente tentavam analisar o espaço que as separava, sendo esse espaço inexistente, pois se percebiam uma como a extensão da outra. Aquelas folhas secas de inverno colhidas por Agatha só representavam beleza se sua contemplação fosse percebida por Gertrudes, a partir dos dias daquela nova estação não existiria mais o nada, sendo Agatha e Gertrudes extensões de si mesmas, tudo lhes era tão caro, o vazio, o contemplativo, o belo, o obscuro. Fundiam-se. Eles.

1 comment:

Lívia Almeida said...

O homem em sua plena dependência e coexistência. Claro, a maioria nega, mas é um fato irremediável e necessário para sermos quem somos.